Mostrando postagens com marcador Papo de Leitura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Papo de Leitura. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, julho 27, 2007

Harry Potter e as Relíquias da Morte (Resenha)

EDIT: a melhor tradução do bruxinho voltou à ativa. Estão quase terminando o livro com qualidade. Pode conferir no endereço:
http://www.at2.blogger.com.br/
Se você ainda não leu Harry Potter e as Relíquias da Morte, talvez não queira ler isto, porque eu estou usando uma alegoria baseada no texto para fazer a crítica. Se você já leu... bão, boa leitura. Espero que reconheça a parte do livro à qual me refiro. (Ah, se você não leu ainda, tem um post mais abaixo sobre o assunto, com um link para um site que traduziu o livro, para um original em inglês e para uma fanfic legal. Eis que divago. Vamos adiante...)



Harry Potter abriu os olhos e havia só a escuridão. A última coisa que ele lembrava era de ter sido atacado por Lord Voldemort, visto um lampejo de luz verde e acordado ali. Estaria morto? Aí ele reconheceu Dumbledore, que se juntou a ele. Os dois sentaram em cadeiras e começaram a conversar.

- Por que você está aqui? Você está morto.

- E daí? Harry, há muita coisa que você não sabe. Coisas que eu não sei. Coisas que J.K. Rowling não sabe.

- O que você quer dizer? Será que não pode me dar uma resposta direta ao menos uma vez?

- Mas, Harry, é isso que estou fazendo. Voltei dos mortos para isso.

- Para que finalmente eu entenda o enredo todo do livro?

Dumbledore suspirou. Um peso parecia ter sido depositado sobre seus ombros.

- Harry, todas as outras vezes que conversamos, no final de suas aventuras, eu expliquei pra você o que tinha acontecido, coisas que não estiveram claras nos outros livros, mas chegavam a explicações razoáveis no fim.

- Sim, e daí? Perguntou Harry.

- E daí que é por isso que estou aqui novamente. Voltei da morte para tentar fechar todas as pontas soltas de suas aventuras, sendo finalmente claro e objetivo. É triste, mas a escritora não pôde desenvolver um esquema diferente para este último tomo da série, como um diário, uma nota escondida pra você, ou mesmo memórias minhas recuperadas em uma penseira.

- Quer dizer que eu morri? Quer dizer, você está morto, então eu teria que estar morto também pra falar com você, não é?

- Não, quer dizer que você tem que aparentar segurança em seu confronto final com Voldemort. Parecer saber da história toda, e satisfeito com as explicações que recebeu, senão pode haver críticas negativas a respeito da trama, e isso não seria bom para os livros futuros que ela está pensando em escrever sobre você.

- Mas eu achei que este fosse o último! Estava até pensando que ia morrer...

- Ora, Harry, não seja ingênuo. Você vende muito bem para morrer. Além do mais, J.K. Rowling já tinha deixado claro que tinha planos para você até a vida adulta.

- Bem, então você pode me dizer a razão de uma trama paralela como a das Relíquias da Morte, sendo que eu já tinha que encontrar todos os Horcruxes?

- Não. Só o que eu posso fazer é ponderar sobre isso. E acho que foi porque a tarefa que você tinha pela frente era tão magnífica e difícil que a autora só pôde pensar em colocar uma trama paralela para encobrir a facilidade com que tudo foi feito.

- E você quer dizer que tudo será explicado aqui?

- Não, Harry. A autora se encarregou de deixar mais pontas soltas, como as Relíquias da Morte e meu aparecimento aqui, para fazer com que os leitores fiquem curiosos e queiram acompanhar você mais um tempo. Além do quê, fez várias promessas a respeito da saga que não se concretizaram neste livro. E que ela vai cumprir em um depois hipotético.

- Mas Dumbledore, - disse Harry, sem fôlego – me diga: pelo menos o livro é bom?

Dumbledore ficou em silêncio por um tempo. Depois tornou, com um olhar dolorido:

- É. É bom sim, Harry. Há falhas na construção, muitos elementos que não são explicados. Minha volta à trama para fazer este trabalho sujo de “amarrar as pontas” é um recurso pobre, a esperada “batalha final” com Voldemort, que só você vai entender – porque os leitores vão achar uma cretinice - , mas o livro é bom. É divertido. Harry, você tem que entender. O livro...

- Sim?

- É para leitores infanto-juvenis!

- Como se leitores infanto juvenis não devessem ser tratados com respeito! E pelo menos você vai me explicar o que é esse lugar em que estamos?

Mas Harry abriu os olhos, e estava caído diante de um Voldemort triunfante.

terça-feira, julho 24, 2007

Harry Potter 7: Original X FanFic

Os que me conhecem sabem que sou um leitor. De quê? Bom... de qualquer coisa que me interesse. Agora, a respeito de Harry Potter, sempre vi os livros como um espetacular conto de fadas, extenso, rico em mágica (literalmente) e que produziu em uma geração uma coisa inestimável: leitores.

O maior mérito de J.K.Rowling não é ter adquirido seus tostões, nem feito sucesso. Foi ter criado uma ficção que fizesse com que crianças e adolescentes começassem a ler. Não importa o quanto pareça óbvio tenho que ressaltar: não havia ficção própria para pré-adolescentes antes de Harry Potter. Havia tentativas, cheias de aventura, rasgos de imaginação. Mas o “fenômeno” Harry Potter se deu porque a escritora preencheu uma brecha enorme no mercado editorial: ficção boa para despertar o interesse.

Não me atire nada se eu comparar Harry Potter com O Senhor dos Anéis. Porque vai bater na tela e pode estragar seu computador. Mas são, ambas, obras muito extensas, cheias de fantasia e boas. Claro, Rowling não se compara a Tolkien – muito menos Sheakespeare, como parece que o NY Times andou sugerindo – mas a explicação para isso está nos públicos diferentes. A maior prova da efetividade da obra de Rowling está nos milhões de leitores que acumulou ao longo da série.

Agora, tou falando isso por quê? Porque andei procurando o livro para baixar e encontrei vários outros fanfics disfarçados. Como sou um leitor, resolvi comparar alguns desses livros “piratas” com a obra de Rowling – todos os 7 livros – e fazer algumas considerações em torno disso. E foi comparando que me dei de conta de um detalhe importante: Rowling errou a mão.

Agora os objetos jogados podem estar vindo da outra parte do pessoal, os fãs de Harry Potter. Pelo bem de seus monitores, parem e leiam adiante. Não estou dizendo que a ficção dela é ruim. Mas falta a rebeldia adolescente, falta a vontade de experimentar. Em suma: falta sexo. Cês já viram um rapaz de dezessete anos que nunca tem uma ereção? Eu fui conhecer na ficção de Rowling. Alguns podem argumentar que isso vem da grande quantidade de crianças que lêem a série, no lance de produzir uma obra adequada para crianças. Beleza, argumentem. Mas não tou falando disso. Tou falando na construção dos personagens. E isso é uma falha.

Percebi quando li um fanfic (maior que a obra final de Rowling!!!), e que apresenta uma história alternativa para o final da saga. “Mas por que”, você pergunta, “resolveu ler uma coisa assim”? Bom, primeiro fiquei curioso, depois estava me divertindo demais para parar. E sabem de uma coisa? É melhor que o último da série. As personagens realmente parecem adolescentes, não sofredores maníacos com um propósito férreo. São os detalhes. A explosão de hormônios comum na adolescência está ausente na obra de Rowling, com exceção de algumas referências a espinhas e olhares ternos. Tudo bem, ela quis assim. Não desmerece a obra. Mas que o outro é melhor, é. E apresento o link como prova. Se você estiver curioso, baixe e leia. Infelizmente, eu não sei o nome do autor, porque resolveram disfarçar o livro como o original. Mas vale a pena.

Um link viável para ler o livro da J. K. Rowling é http://www.bhblitz.com.br/mafia/livros.htm (pelo menos neste momento está funcional, tão deletando montes de sites). Aí tem traduzido ou em inglês. O que está em inglês é autêntico, eu comparei. Não sei a qualidade da tradução. Não coloquei um link direto para o arquivo porque sou um covardão (perguntem a qualquer um) e não quero o blog deletado. O link para o fanfic está na imagem. Experimente.

sábado, julho 21, 2007

Encontro às Escuras (Resenha)


Mais um livro de amigo que aparece aqui no blog. Dessa vez é uma novela romântica cheia de comentários. Pode parar de enfiar o dedo na garganta, a parte romântica é, segundo o cara me disse, "só uma desculpa para as bobagens". E é verdade, a história não chama tanta atenção quanto os comentários ou o estilo do autor.

Trata-se de um cara com uma dor de corno monumental por causa de uma namorada. E de sua trágica história amorosa. E de comida chinesa. E uma obcessão pelo IRA que eu não pesquei muito bem, não. Se você notar alguma coisa estranha sobre uma calçada no ivro comente aqui, sinal que eu não me enganei. Ah, também trata de locadoras e das moças que atendem nelas.

Na verdade, a história é meio rasa. E tem, tipo, três palavras em cada página para esticar o texto e parecer um livro, mesmo. Mas é engraçado, o autor tem consciência do próprio estilo e explora isso muito bem. Acaba sendo divertido. Até bom. Com certeza engraçado. Faz você se lembrar do tempo de adolescência, em qu encontros às escuras pareciam realmente uma alternativa viável à secura que você volta e meia passava. E você percebe também cada malandragem estilística do autor.

Meu conselho: esqueça a trama e concentre-se no estilo. E leia. Vale a pena. Não é tão bom quanto poderia ser, mas é melhor que muita coisa por aí que cê paga uma banana pra ler.

Abraço.
(OBS - o link tá na imagem, se eu fiz tudo certinho.)

terça-feira, julho 17, 2007

Considerações

Neste momento você deve estar olhando para a tela e pensando “Tá, considerações. Sobre o quê?” E eu respondo: sobre horror, ué. Foi uma coisa que apareceu no blog meio que por acidente, simplesmente deixei os dedos rolarem no teclado e saiu um contículo de horror sobre um gato na sacada (é, isso aí. Também achei estranho.) Depois saiu outro, e mais outro. E eu pensei aqui comigo: “por que o horror nos atrai tanto?”


Eu não sei como aconteceu com você – e nem se acontece. Comigo, a coisa começou com os filmes (péssimos) de horror da década de 70-80. Stephen King foi um autor que começou a pipocar seguido em minha mente antes mesmo que eu lesse Machado de Assis ou Érico Veríssimo. Impulsionado pelo pavor e a adrenalina dos filmes (Re-Animator, Evil Dead, Christine, Cemitério Maldito, etc...), comecei a procurar os livros. Eu andava numa de clássicos. Então, o primeiro autor com que entrei em contato foi o bom e velho E.A.Poe, que também já tinha visto em algumas adaptações para o cinema. Os contos dele me gelavam a espinha.



Depois de Poe eu não conseguia ler um Stephen King com o mesmo gosto. Sei lá, uma questão de estilo. O Poe me horrorizava. King fazia o terror parecer um passeio na Casa Assombrada de um parque de diversões. As aventuras eram mais ou menos as mesmas. Homem encontra mistério fantasmagórico de um tipo qualquer, mistério fantasmagórico de um tipo qualquer mata um monte de gente, homem mata mistério fantasmagórico de um tipo qualquer. Poe tinha uma qualidade mais intensa em seus escritos.



Depois descobri H.P. Lovecraft. Foi um achado! O cara realmente sabia criar um clima. E foi lendo Lovecraft – em particular um ensaio dele sobre o Horror e a literatura fantástica – que descobri que há uma diferença entre o TError e o HOrror. Que é o fato de o escritor de horror estar preocupado em criar um clima tétrico para a história. Essa preocupação faz a diferença. Tendo lido o ensaio – em que o autor se preocupa em indicar também os autores mais bem sucedidos de horror em todas as épocas – encontrei muito mais coisas boas para ler.



Fui apresentado a Maupassant, Defoe, Bierce; até Heinlein tem um conto magnífico de horror. E, nesse meio tempo, cheguei à conclusão de que o que nos leva a buscar esse tipo de literatura (ME leva. Como eu disse, não sei você, se gosta) é uma vontade de temer, de se assustar. Talvez algo que a gente traga nas costas desde antes de descer das árvores, em que uma descarga de adrenalina poderia te salvar do predador. Penso que a literatura de horror/terror tem essa finalidade, de suprir nossos organismos com um temor irracional para que nosso organismo está preparado, foi feito para isso. Mas a segurança e – às vezes – monotonia da vida moderna não supre. Em minha opinião, o HOrror é mais efetivo que o TError. A maioria dos últimos livros me chateia (King, Anne Rice, etc.). Mas os antigos ainda conseguem me prover com aquele frio gostoso na espinha.
Claro, o que eu escrevo não tem essa preocupação em criar o “clima”. Mas acho que alguns são efetivos (especialmente se você os lê de noite... hehehe). Depois de tantas considerações e dicas, acho que o mínimo que posso fazer por você é postar alguns links para histórias de terror/horror. Tirei estes do PDL (link aí do lado). Não sei se você vai conseguir acessar sem se cadastrar, mas asseguro que o processo é indolor e o resultado vale a pena! Se quiser mais, tem um monte. E bons suores frios!!!



Livros de:









sexta-feira, julho 13, 2007

Romances de Jonathan Carroll


Primeira vez que ouvi falar em Jonathan Carroll, foi num gibi do Sandman, em que o Neil Gaiman comentava que, não importava o que criasse, descobria que já havia sido feito com muita propriedade por este autor. Tá na cara que Gaiman era fã dele, e hoje são grandes amigos.

Depois vi de novo como o fulano que faz a introdução de Signal to Noise, uma história belíssima sobre um diretor de filmes que está para morrer. Bão, como era de se esperar, fui atrás. Descobri a página do cara, tinha uns contos e algumas matérias relevantes. Li, gostei, comecei a buscar os romances.

Aí a coisa encrencou. Não havia disponibilidade dos romances deste autor nem em português nem em inglês, nas livrarias nacionais. O máximo que eu encontrava eram referências em blogs ou na seção "autores favoritos", ou "o que estou lendo". Imaginem a minha inveja.

Então, o que estou postando aqui é o resultado de mais ou menos cinco anos de pesquisas esporádicas na internet pelo autor. Sinto muito se só há coisas em inglês e espanhol, mas não foi traduzido, ao que parece, para o português. Eu, pelo menos, não achei. Tentei comprar, também, mas era um dos livros que cê tem que mandar importar, e meus fundos não são nem de perto suficientes para tanto.

Se você está na mesma dificuldade que eu, espero que este link te ajude:



Se quiser saber um pouco mais do autor, ele escreve fantasia, tem uma linguagem muito fácil e delicada, e (minha opinião) trata dos sentimentos com propriedade rara: cê se apaixona pelos personagens que ele cria. A linguagem dele é tão boa que a mágica, embora interessante e onipresente em seus romances, é quase um recurso que sobra, ali. Falando sério.

Então, se você gostou e aparecer por aqui, por favor compre os livros. Acho que os poucos autores que valem a pena ser lidos atualmente merecem receber por seu trabalho. E este é um deles. Digo isto porque me senti mal postando links para obras de um cara que procurei por curiosidade e aprendi a admirar. Era isso. Abraço.

quinta-feira, julho 12, 2007

Jerusalem Jones

Agora imagina que você é um blogueiro há anos, sempre posta aqueles continhos bacanas, despretensiosos, e de repente se surpreende com um monte de leitores procurando pelas suas coisas. Foi mais ou menos o que aconteceu com o Eudes, autor do Rapadura Açucarada, um dos melhores blogs que conheço.
O que nos leva a Jerusalem Jones: é uma coletânea de contos de seu personagem principal, um caubói que se mete nas frias mais imprevisíveis, desde mortos-vivos e fantasmas até alienígenas pipocando por todo lado no velho oeste americano.
Primeira coisa que pensei foi "putz... bangue-bangue?" Mas me obriguei a ler. Menos por um sentimento de dever do que pela admiração que sinto pelo autor. E não é que é muito bom? O protagonista é uma mistura de Hellblazer, Trinity e Jonah Hex - um caubói estranho publicado pela DC. Tá, não ia ganhar um Nobel nunquinha, mas a leitura é leve, descompromissada e interessante, pelo fato de a gente nunca saber o que vem depois.
Como eu disse para o Eudes, "eu compraria." E é verdade. É o tipo de livro que você que gosta de ler guarda do lado da cama, para quando encher o saco de grandes temas. É divertido, imaginativo e cheio daquela cultura dos anos 80 que nos é tão querida.
Taí o link. Aproveitem. Eu aproveitei.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Leituras

Eu estava conversando com um amigo a respeito da série Discworld, de Terry Pratchett, no outro dia (essa conversa de “no outro dia”, em blogs, significa que faz um tempão, mas que o blogger só resolveu comentar agora). Ele resumiu a opinião dele a um “eu achei meio chato” e teria parado por aí.

Abre parêntesis. Se você não gosta de devaneios, pode pular lá pra baixo, no próximo parágrafo. Talvez essa seja a única crítica honesta: ou gostamos de um livro ou não gostamos. Se gostamos, o livro é bom; se não, o livro é mau, e não adianta os especialistas escreverem trabalhos ou teses provando que o livro é bom(ou mau) por causa da técnica narrativa do autor, ou pela maneira como os capítulos estão dispostos. Nossa opinião nem rela nisso. Nosso julgamento se baseia na experiência pessoal, em nossas referências e na maneira como nos permitimos ser tocados pelo autor, e tudo se coaduna com o texto para criar uma impressão de gostar ou não de um livro ou texto. Não importa quão eminente seja o crítico, a palavra final é a do leitor. Fecha.

Bom, eu comentei que, pessoalmente, gosto do trabalho do Pratchett. Não encaro como uma leitura séria, nem como algo leviano para se fazer quando se tem tempo de sobra: encaro como uma leitura boa. Leve, sem grandes tramas, usando vários elementos conhecidos do leitor e tecendo eles em histórias maiores. Mais ou menos o que foi a chave do sucesso do Harry Potter e do Senhor dos Anéis (desculpas aos que cultuam Tolkien, mas é isso mesmo, não é não?). E às vezes encontramos partes muito boas em que ele satiriza os usos e costumes da sociedade moderna, e tiradas esporádicas de gênio.

Aí é que vem a parte que eu queria comentar. O meu amigo olhou para mim e disse: "É, mas eu não vou ler um livro todo pra achar uma coisa boa aqui e outra lá. Pra isso eu prefiro ver só as citações." Quero salientar que isso vem de um cara que lê mais de um livro por mês, adora Dostoiévski, se liga em pintura, quadrinhos e filosofia oriental, tem terceiro grau completo e foi criado na volta dos livros desde criança, sem dificuldade para expor suas idéias. Isso meio que quebrou meu rebolado.

Então, queria levantar essa questão: é possível um autor manter uma produção constante só com tiradas geniais? Como é que você lê? Gosta de uma argumentação bem concatenada, cada argumento no lugar, ou prefere esperar pelo brilho fugar de um toque de gênio? Tou lendo do "jeito errado" e não sei?

Era isso. Agora, tá com você.

Ângelos

Foi assistindo ao curta-metragem Ângelo Anda Sumido que eu percebi que eu conhecia o Ângelo. Não o Ângelo específico, o Ângelo de quem falavam e por quem perguntavam, mas o Ângelo em geral, que aparece em milhares de conversas análogas todos os dias, mas só de passagem. Em quem falamos como se fosse um ponto de referência para determinado tempo passado, em que conhecíamos o Ângelo. Ângelo não importa, não consta, não faz diferença nem tem indiferença. É apenas uma citação, está naquela conversa como uma lembrança, não que nenhum dos dois realmente se preocupe com a vida de Ângelo. O Ângelo indiferente, sem rosto nem fisionomia, sem corpo, sem características, andando incólume, invisível no meio da multidão e tendo convivido com todas as pessoas num determinado tempo, depois desaparecido sem deixar vestígios.

Esse Ângelo, conheci aos milhares: criaturas feitas de névoa, que se encontram com você numa esquina da noite molhada de um fim de semana invernal para, depois de duas horas, sem deixar vestígios, desaparecerem para sempre. Apenas aparecem ali, interagem com você um minuto e depois – ZAP! – se foram. E não serão vistos novamente, nem lembrados com freqüência: apenas citados de acordo com o acaso, ou a associação de idéias. Terão se tornado apenas mais um marco, algo que serve apenas para localizar algum fato mais importante no espaço e no tempo; há milhares deles em cada existência; os Ângelos são aqueles caras que tiraram um sarro de você porque a roupa não era adequada à ocasião; aquele flanelinha que você acha que arranhou seu carro, o cara de cabelo lambido que conversou com você na fila do cinema e a quem você achou incrivelmente burro. Ou almofadinha. Ou nada disso.

Pessoalmente, acho que os Ângelos, mais que contingências necessárias à toda vida que pretende se arrastar em interação constante com outras, são um sintoma da época em que vivemos. Não há o que negar: somos impessoais. Basta olhar as ruas à noite, na hora do rush ou pela manhã, quando as pessoas estão indo para seus trabalhos com bafo de café e vida conjugal batida, ouvindo algum programa de rádio ainda mais vazio que a mente sonolenta: há uma pessoa em cada carro. Andando pela rua, não há quem o cumprimente; cada um está seguindo seu caminho, com o perdão da expressão, cagando para como pode estar o seu dia, ou conversando com um amigo que foi escolhido por ser parecido conosco, ter os mesmos gostos... em suma: poder propiciar alguma vantagem social, status ou mesmo alguma vantagem pecuniária. São os outros otários, que incompreensivos, cometem o sacrilégio de achar você um otário.

Cá entre nós, não dou a mínima. E também sei que não é exatamente isso que o filme queria passar. Pelo menos, não nesse nível. Mas, ao me perguntar onde andará o Ângelo, percebo que há milhares de Ângelos dispersos na cidade de concreto e grades, me cercando atrás de todas as cortinas de todas as janelas. Para onde vão os Ângelos depois que morrem? Com certeza para um céu especial, repleto de Ângelos invisíveis, que sequer podem ver uns aos outros. Assim, cumprem seu legado de solidão e mistério. Que são características básicas de todo Ângelo. De que se alimentam os Ângelos? Com certeza, de lembranças antigas. Por isso cruzaram com você uma noite. Ângelos são nostalgia, alegria, alergia, à sua revelia. Existem independentemente de você. Você é apenas uma morada provisória deles. Quando você se for, haverá uma revoada de Ângelos, de sua cabeça para a noite. E depois se dispersarão na cabeça de diversos outros otários. Como você.

O Rasgo

Eu vou descrever a cena pra você: estou sentado em um sofá olhando para uma pequena almofada verde, que mede 30X30cm (é, eu medi) e está mais ou menos acabada. É uma coisa que está na minha lista de bota-fora, mas que, por algum motivo que me escapa no momento, fui mantendo próxima de mim. O pano é rústico, áspero e vem ilustrado com um filhote de tigre estendendo as garras para uma mancha marrom que – suponho – deveria parecer uma árvore e, por uma dessas coisas que fazem o mundo andar e desandar às vezes, não parece. Perto da pata traseira do tigre há um rasgo de 4,5cm (é, eu medi também). Essa almofada está a dois metros de onde estou e estou olhando para ela como se nunca tivesse visto uma coisa mais bonita na vida. Aí acontece uma coisa incrível, uma catarse: eu entendo porque mantive essa coisa velha e rasgada por tanto tempo e o rasgo me conta sua história.

Obra minha. Eu rasguei a almofada com uma chave de fenda quando estava tentando consertar o vídeo-cassete há alguns anos atrás, e o resultado foi que no lugar de uma eu tive duas coisas estragadas em casa. O vídeo-cassete já há algum tempo deixou de marcar presença em minha estante (mais ou menos quando decidi me livrar da televisão), mas a almofada permanecia ali, esquecida em algum canto da sala, ferindo a visão periférica com uma insistência difícil de descrever, até que o seu segredo fosse revelado. Quem foi que disse que as coisas contam histórias também? Pois o que eu vi na almofada foi a minha ilusão e o meu ópio durante tanto tempo que praticamente esqueci o que era olhar para o mundo acordado. Sabe lá por que cargas d’água, um dia eu resolvi que iria escrever.

Há muitas pessoas verdadeiramente brilhantes no mundo e, se você um dia duvidar disso, é só comprar um jornal qualquer e dar uma folheada: eles estarão lá. Na seção de política ou de opinião, os campeões do malabarismo ideológico e doutorandos em castelos de carta, os papas do glamour. Lá. Na direção de grandes empresas, sendo reconhecidos por seus feitos, sendo admirados por milhões ou ficando podres de ricos de alguma maneira. Se tem uma coisa que me fascina é a constância. Incrível como algumas pessoas conseguem ser brilhantes e inteligentes o tempo todo. Nós, meros mortais, somos como a velha almofada verde com um desenho feio de um tigre e uma árvore irreconhecível. Temos um rasgo. Ponto final.

Agora, se você achar que isso é pouco, lembre-se que isso basta para condenar uma almofada ao lixo – ou uma vida dedicada à mais insossa das tentativas.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Gargantua, Pantagruel e Escatologia

Pois é. Naquelas de considerar que a falta de um livro universalmente conhecido é uma falha de caráter, além de pura curiosidade às citações de outros livros, resolvi minerar Gargantua e Pantagruel, de Rabelais, para ler. Gargantua consegui em uma biblioteca, Pantagruel consegui em inglês. Eu nem sabia que eram dois livros separados.

E daí chegamos em um ponto importante: eu reconheço a crítica do autor ao sistema de valores da época ao caçoar da maneira de se comportar dos nobres, das crenças nos brasões, das citações gregas e da importância exacerbada à religião. Acho isso muito bacana. Identifico também o elemento satírico, e o aplaudo. Mas discordo da maneira como o autor busca divertir. Parece que os principais motes, bordões, punchlines, são relacionadas à escatologia: ou é um peido prodigioso dado pelo gigante, ou uma demorada reflexão sobre as maneiras de limpar a bunda, uma quantidade indizível de caralhos, bucetas e cus no texto, entremeado de citações em latim ou grego que acabam tornando a história repetitiva, se não incompreensível.

Tudo parece se basear no exagero, com detalhes sobre as dimensões dos objetos e vestuário usados pelos gigantes, as proporções que ingeriam. Eu gosto tanto de um palavrão quanto o cara do lado, mas o exagero não faz senão minimizar o impacto que um palavrão tem - por ser um palavrão. A minha opinião é a de que essa crítica dos "grandes" foi realizada com maior sucesso e de forma mais inteligente (e efetivamente cômica) por Jonathan Swift, em As Viagens de Gulliver. O livro acabado, tou editando o post. Pior é que não mudei de idéia não: fora uns lances engraçados com um frade abatendo os inimigos às centenas com um braço de cruz, não vi nada mais que prestasse. É um clássico, mas é esse tipo de livro. Com certeza teve seu valor, mas a veia cômica não se compara à de um Swift ou um Cervantes.

Pra não perder o tempo de vocês, um veterinário teve que sair do consultório e deixou uma placa: VOLTO LOGO. SENTA. QUIETO. Legal, né? Li numa tirinha do Laerte.