Mostrando postagens com marcador Cronica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cronica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Ângelos

Foi assistindo ao curta-metragem Ângelo Anda Sumido que eu percebi que eu conhecia o Ângelo. Não o Ângelo específico, o Ângelo de quem falavam e por quem perguntavam, mas o Ângelo em geral, que aparece em milhares de conversas análogas todos os dias, mas só de passagem. Em quem falamos como se fosse um ponto de referência para determinado tempo passado, em que conhecíamos o Ângelo. Ângelo não importa, não consta, não faz diferença nem tem indiferença. É apenas uma citação, está naquela conversa como uma lembrança, não que nenhum dos dois realmente se preocupe com a vida de Ângelo. O Ângelo indiferente, sem rosto nem fisionomia, sem corpo, sem características, andando incólume, invisível no meio da multidão e tendo convivido com todas as pessoas num determinado tempo, depois desaparecido sem deixar vestígios.

Esse Ângelo, conheci aos milhares: criaturas feitas de névoa, que se encontram com você numa esquina da noite molhada de um fim de semana invernal para, depois de duas horas, sem deixar vestígios, desaparecerem para sempre. Apenas aparecem ali, interagem com você um minuto e depois – ZAP! – se foram. E não serão vistos novamente, nem lembrados com freqüência: apenas citados de acordo com o acaso, ou a associação de idéias. Terão se tornado apenas mais um marco, algo que serve apenas para localizar algum fato mais importante no espaço e no tempo; há milhares deles em cada existência; os Ângelos são aqueles caras que tiraram um sarro de você porque a roupa não era adequada à ocasião; aquele flanelinha que você acha que arranhou seu carro, o cara de cabelo lambido que conversou com você na fila do cinema e a quem você achou incrivelmente burro. Ou almofadinha. Ou nada disso.

Pessoalmente, acho que os Ângelos, mais que contingências necessárias à toda vida que pretende se arrastar em interação constante com outras, são um sintoma da época em que vivemos. Não há o que negar: somos impessoais. Basta olhar as ruas à noite, na hora do rush ou pela manhã, quando as pessoas estão indo para seus trabalhos com bafo de café e vida conjugal batida, ouvindo algum programa de rádio ainda mais vazio que a mente sonolenta: há uma pessoa em cada carro. Andando pela rua, não há quem o cumprimente; cada um está seguindo seu caminho, com o perdão da expressão, cagando para como pode estar o seu dia, ou conversando com um amigo que foi escolhido por ser parecido conosco, ter os mesmos gostos... em suma: poder propiciar alguma vantagem social, status ou mesmo alguma vantagem pecuniária. São os outros otários, que incompreensivos, cometem o sacrilégio de achar você um otário.

Cá entre nós, não dou a mínima. E também sei que não é exatamente isso que o filme queria passar. Pelo menos, não nesse nível. Mas, ao me perguntar onde andará o Ângelo, percebo que há milhares de Ângelos dispersos na cidade de concreto e grades, me cercando atrás de todas as cortinas de todas as janelas. Para onde vão os Ângelos depois que morrem? Com certeza para um céu especial, repleto de Ângelos invisíveis, que sequer podem ver uns aos outros. Assim, cumprem seu legado de solidão e mistério. Que são características básicas de todo Ângelo. De que se alimentam os Ângelos? Com certeza, de lembranças antigas. Por isso cruzaram com você uma noite. Ângelos são nostalgia, alegria, alergia, à sua revelia. Existem independentemente de você. Você é apenas uma morada provisória deles. Quando você se for, haverá uma revoada de Ângelos, de sua cabeça para a noite. E depois se dispersarão na cabeça de diversos outros otários. Como você.

O Facínora

Família é foda. A minha esposa trouxe ele para casa, nem bem havíamos fechado um ano de casados. Achei que ela ia demorar um pouco mais para pôr as manguinhas de fora... Era como um gremlin envelhecido. Enrugado, sem um dente na boca. O andar claudicante, como se estivesse prestes a desabar, levando alguma coisa frágil junto com ele para o chão. Sim, porque mexia em tudo, como se tudo fosse propriedade dele. Se alguma coisa o interessava em minha pilha de revistas, não tinha a mínima delicadeza de pedir minha permissão: simplesmente rasgava o que lhe interessava e ia ruminar em algum canto.

Propus à minha mulher comprar uma dentadura e ela se escandalizou. E eu ali, órfão de esposa, numa carência só. Mas tudo bem. Ou estaria, caso não tivesse de agüentar o cara zanzando pela casa o dia inteiro, mexendo em todas as coisas que não devia. Em pouco tempo, assistir televisão se tornou quase impossível, porque o cara-de-pau foi logo arrebatando o controle remoto, me exilando de minha poltrona, fechando as portas do país para mim, na hora do jornal.

E o pior é que não era um terrorismo, coisa subversiva, intrigas ou similares: não, o facínora sentia necessidade de alguma coisa, dava a entender, minha esposa vinha com aquela fala mansa e lá ia o otário, às dez e meia da noite, para um posto de conveniências comprar o que a Majestade estava precisando. Não tinha ponto da casa em que ele não entrasse, ou não aparecesse de surpresa quando menos era esperado, e o pudor de minha esposa me causava crises de acidez estomacal. E se ele estivesse ouvindo? Não, agora não. O pior é que ela olhava para ele com uma candura e um calor com que eu não lembrava de ter sido olhado. Sentia ciúmes, por que não confessar?

Quando ele adoecia – e ele adoecia uma vez por semana – minha esposa ficava preocupada, mal dormia, falava a toda hora de suas inseguranças a respeito da saúde dele, ficava mimando ele pra cá e pra lá. Mais um travesseiro? Mais uma coberta? E o ciúmes me corroendo por dentro, tirando nacos do meu estômago para aperitivar. Além disso, uma aura de respeitabilidade caiu sobre nós. Tinha que vir direto do serviço para casa, fui abolido do chopinho com os colegas, meu lugar foi rifado entre os estagiários da firma. Para mim, a tranqüilidade tinha acabado, definitivamente.

Cheguei a tramar o assassinato: sufocaria ele com o travesseiro, e ganharia minha esposa e minha vida de volta. Fácil assim. Pensei tudo nos mínimos detalhes. Caminhei até o quarto dele, e observei-o dormindo sobre uma poça de baba, as gengivas nuas visíveis. E nem isso pude fazer. Aliás, ando até feliz com ele. Pois não é que o facínora esses dias chegou para mim, emitiu um gritinho alegre e pela primeira vez me chamou de pai?

O Rasgo

Eu vou descrever a cena pra você: estou sentado em um sofá olhando para uma pequena almofada verde, que mede 30X30cm (é, eu medi) e está mais ou menos acabada. É uma coisa que está na minha lista de bota-fora, mas que, por algum motivo que me escapa no momento, fui mantendo próxima de mim. O pano é rústico, áspero e vem ilustrado com um filhote de tigre estendendo as garras para uma mancha marrom que – suponho – deveria parecer uma árvore e, por uma dessas coisas que fazem o mundo andar e desandar às vezes, não parece. Perto da pata traseira do tigre há um rasgo de 4,5cm (é, eu medi também). Essa almofada está a dois metros de onde estou e estou olhando para ela como se nunca tivesse visto uma coisa mais bonita na vida. Aí acontece uma coisa incrível, uma catarse: eu entendo porque mantive essa coisa velha e rasgada por tanto tempo e o rasgo me conta sua história.

Obra minha. Eu rasguei a almofada com uma chave de fenda quando estava tentando consertar o vídeo-cassete há alguns anos atrás, e o resultado foi que no lugar de uma eu tive duas coisas estragadas em casa. O vídeo-cassete já há algum tempo deixou de marcar presença em minha estante (mais ou menos quando decidi me livrar da televisão), mas a almofada permanecia ali, esquecida em algum canto da sala, ferindo a visão periférica com uma insistência difícil de descrever, até que o seu segredo fosse revelado. Quem foi que disse que as coisas contam histórias também? Pois o que eu vi na almofada foi a minha ilusão e o meu ópio durante tanto tempo que praticamente esqueci o que era olhar para o mundo acordado. Sabe lá por que cargas d’água, um dia eu resolvi que iria escrever.

Há muitas pessoas verdadeiramente brilhantes no mundo e, se você um dia duvidar disso, é só comprar um jornal qualquer e dar uma folheada: eles estarão lá. Na seção de política ou de opinião, os campeões do malabarismo ideológico e doutorandos em castelos de carta, os papas do glamour. Lá. Na direção de grandes empresas, sendo reconhecidos por seus feitos, sendo admirados por milhões ou ficando podres de ricos de alguma maneira. Se tem uma coisa que me fascina é a constância. Incrível como algumas pessoas conseguem ser brilhantes e inteligentes o tempo todo. Nós, meros mortais, somos como a velha almofada verde com um desenho feio de um tigre e uma árvore irreconhecível. Temos um rasgo. Ponto final.

Agora, se você achar que isso é pouco, lembre-se que isso basta para condenar uma almofada ao lixo – ou uma vida dedicada à mais insossa das tentativas.

Coração de Ouro

Ao dia onze de fevereiro de 2002, foi constatado o nascimento de uma criança com coração de ouro no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. O acontecimento era inédito. A notícia correu como vento, e todas as alas do hospital comentavam o acontecido, este médico fazendo menção à curiosidade do fato, aquela paciente emprestando ao assunto misticismo. O médico responsável chamou a mãe até seu gabinete, e comunicou-lhe a nova.

“Ouro, doutor?”

“Ouro, minha senhora. 24 quilates.”

“E ele está bem?”

“Está, está passando muito bem. Mas, com a sua permissão, eu gostaria de mantê-lo no hospital, para exames.”

“Exames?”

“Sim, senhora. A senhora vê, uma criança com o coração de ouro é uma coisa inédita, nunca antes vista. É necessário que se mantenha ela em isolamento total. Ela deve ser estudada, compreendida, analisada, até que tenhamos certeza do que originou o fenômeno e se ela tem condições de sobreviver ao mundo externo.”

A mãe esboçou um sorriso.

“Doutor, eu tenho trabalhado como doméstica a minha vida inteira. O meu marido é auxiliar de pedreiro. Quando eu fiquei grávida nós choramos, porque não sabíamos se o nosso filho teria tudo de que ia precisar. Se poderíamos dar escola, comida, tudo do bom e do melhor. O nosso medo é que ele se perdesse. Virasse traficante ou ladrão. Que o coração dele virasse pedra. Ter um filho com coração de ouro é a melhor coisa que poderia acontecer em nossas vidas. Não pelo valor. Mas é o que a gente mais queria. Eu levo o menino.”

Segundo os cientistas que investigaram o acontecimento, a criança poderia ter sido um líder, um pregador, alguém que conduzisse o país. Mas não sobreviveu. Uma bala perdida fendeu o coração de ouro em uma esquina do morro, quando ele voltava com o leite e o pão. Dizem que o coração, ao contato do chumbo vil, forjado para matar, escureceu e se partiu. "Ouro não oxida com ar", dizem os especialistas, "mas a tristeza embaça qualquer material".

E fim.