A C.C.P.
(Ao som de Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band)
A Congregação dos Corações Partidos se manifestou pela primeira vez
Num noticiário, com voz irônica de apresentador narrando as desventuras
De um grupo de pessoas solitárias, dispersas,
Unidas por mágoa e desilusão.
Lembro que a TV estava levemente desregulada,
A linha vertical saltando ao ritmo de corações pobres
Em amor e esperança. Também as cores estavam profeticamente fora
De seu balanço usual. O vermelho, excitado,
Saltava das formas, fantasma, brincando na imensidão fotônica da tela
Vieram entre uma celebridade que confessava ser bissexual
E as entrevistas com os primeiros voluntários para uma colônia em Marte,
(Possível mediante a explosão de bombas de hidrogênio no planeta vermelho
Que liberariam o oxigênio necessário à sobrevivência humana.)
Vieram com força titânica, espalhados pelo mundo e unidos pelo pranto
"Será possível que ninguém nessa merda de planeta...?"
Sei que foi viagem, mas num acesso clarividente percebi o fenômeno:
Três vermelhos se fundiram, se buscaram, se entenderam
Numa revelação captada num vai-e-vem caótico de comercial insensato
De algum refrigerante tornado "jovem" há anos.
Corações Partidos descobriram a sexualidade e foram viver, felizes, numa colônia de Marte.
Em permanente orgia, e alheios a tudo que não seja a vermelhidão de seus humores,
Não escutam quando pergunto, aos gritos, da sacada para o infinito
(apesar do estranhamento dos vizinhos):
"Dois corações partidos, se se juntam, formam um?"




