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terça-feira, julho 10, 2007

A C.C.P.

(Ao som de Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band)

A Congregação dos Corações Partidos se manifestou pela primeira vez
Num noticiário, com voz irônica de apresentador narrando as desventuras
De um grupo de pessoas solitárias, dispersas,
Unidas por mágoa e desilusão.

Lembro que a TV estava levemente desregulada,
A linha vertical saltando ao ritmo de corações pobres
Em amor e esperança. Também as cores estavam profeticamente fora
De seu balanço usual. O vermelho, excitado,
Saltava das formas, fantasma, brincando na imensidão fotônica da tela
Vieram entre uma celebridade que confessava ser bissexual
E as entrevistas com os primeiros voluntários para uma colônia em Marte,
(Possível mediante a explosão de bombas de hidrogênio no planeta vermelho
Que liberariam o oxigênio necessário à sobrevivência humana.)
Vieram com força titânica, espalhados pelo mundo e unidos pelo pranto
"Será possível que ninguém nessa merda de planeta...?"

Sei que foi viagem, mas num acesso clarividente percebi o fenômeno:
Três vermelhos se fundiram, se buscaram, se entenderam
Numa revelação captada num vai-e-vem caótico de comercial insensato
De algum refrigerante tornado "jovem" há anos.
Corações Partidos descobriram a sexualidade e foram viver, felizes, numa colônia de Marte.
Em permanente orgia, e alheios a tudo que não seja a vermelhidão de seus humores,
Não escutam quando pergunto, aos gritos, da sacada para o infinito
(apesar do estranhamento dos vizinhos):

"Dois corações partidos, se se juntam, formam um?"

À Nave Mãe

Cês já viram 2001 - Uma Odisséia no Espaço?
Quer coisa mais poética que aquele astronauta flutuando no vácuo? Bão, escrevi uma ode à Nave Mãe, inspirado em uma historinha do Monstro do Pântano. Lá vai ela.

Os raios de sol se movem cerca de oito minutos até que sua luz chegue
E, ao interceptá-los, sinto um vago estremecimento de teu corpo
Como se por temor que a luz vívida descubra teus segredos internos
Teus rumores estomacais e metálicos, teu gerador central, teu útero de ferro e amianto.
Pequenos ácaros brancos desfilam sobre teu corpo
Mal tocando tua superfície com patas sumamente defeituosas
Mas me assusta que esses ácaros
Um dia domem tua animidade, e te lancem, doença impiedade
No vazio sem fim, tomando a rota da esquerda
Atrás da lua, cheia, sempre,
Consensiosa madrinha dos amantes,
Na rota de uma nova concepção de ser.


Fugirias de mim assim? Eu, que vou e volto incessantemente,
Amante infiel e adorado de luzes estroboscópicas multicolorais, arco-íris no vácuo
De teus desejos inermes
Eis que me aproximo!
Ah, escuridão cheia de luz, oblitera em teu silêncio
A mágoa da violação. Pois me aproximo.


Pequenos ácaros, agora é hora de dormir. Durmam, e sonhem com o infinito palpitante
Enquanto me aproximo da Nave-mãe, derradeira estação espacial,
Mãe de meu desejo, veículo de meu prazer.
Estendo silenciosamente - pois tudo, o mero toque cálido
É silencioso, quase sagrado - minhas gigantescas pinças tremeluzentes
E, num suspiro de gases escorrendo para o vácuo,
Acoplo-me a ti. Copulo-me a ti. Copulamos uma vez mais
No espaço infindo
Enquanto Deus,
vouyeur supremo,
estremece de sensibilidade.

O Elogio das Mocréias

Amigo meu e eu távamos jogando conversa fora um tempo atrás e ele me veio com a história de que, se não fosse uma mocréia, era capaz de ele nunca ter perdido a virgindade. Eu me ouricei porque acho que essa perfeição estética almejada pelas moças hoje em dia é até incompactível com as possibilidades de um corpo humano feminino saudável. Prova disso é a quantidade de plásticas a que se submetem para ficarem "aceitáveis" as atrizes, cantoras, cantrizes e afins.
Daí, de bobeira no computador de noite, calhei de escrever um "elogio às mocréias". E é o que aí vai. Posto, porque achei engraçado.

Salvem as mocréias!
Esses anjos tortos, ressentidos de desejos reprimidos
Que desfilam sua magnífica fealdade pelas ruas de nossas cidades
E nos olham olhares pidões, implorativos, desejarentes.
Seus corpos oblongos, desconexos, imperfeitos, maravilhosos
São os únicos a atrair meu olhar transbordante de perfeição televisiva
Das musas seriais das academias
Body-builded como frankensteins modernos,
Todas formas, e todas tinturas, e todas piercings e todas tatuagens
Oxigenação de esmalte brilho modelagem lipoaspiração frases feitas manicurais
Pedicuradas fashioness geneticamente planejadas siliconágeis, sexualidade em uma malha
Desvalorização do subjetivo, iniqüidade clonada, paralelepípedas seriais.
Salvem, ah, salvem as mocréias,
Divinos aparelhos, sacrossantas desproporções!
Amálgamas de humildades e sonhos,
Têm reprimido no peito todo um calor que eu nem sei.
Há muito minha sexualidade caiu no barro, voltou suja.
E sujo demais me submeteria ao desejo da Top Model da vez.
Porque apenas se uniriam dois vazios e nenhum sentido.
Eu as quero estrábicas, desconjuntadas, escabeladas, míopes, gordas, magras,
Verdadeiras musas de nossos dias iguais!

Hai-Cai

Hai Cais são poesias curtas japonesas, em que o ritmo poético é definido pela simplicidade. Se não me engano - e costumo me enganar pra caramba - elas vão de 17 a 25 sílabas, um troço assim. Aí, resolvi tentar, mas só saiu besteira. A melhorzinha foi:

Dizia o velho ditado:
Antes pássaro na mão
Do que mal acompanhado.

Pra imaginar como não foram as outras.