sábado, setembro 29, 2007

Homenzinhos

Você acorda e tem a impressão de que quebraram a sua cabeça em duas e usaram a gema e a clara em alguma receita, deixando só um oco e a casca partida. Daí os olhos parecem inchados, o nariz não funciona direito e seu corpo foi massageado com um pau de macarrão pela irmã mais velha do Maguila. Seu hálito cheira como se tudo o que você comeu de porcarias nos últimos meses voltasse para se vingar e decompor na sua boca. Resfriado é foda.

Não é difícil entender por que na Idade Média o pessoal atribuía muito disso a maus espíritos. Tem que ser particularmente maquiavélico para juntar tantos sintomas desagradáveis em uma só doença. É sério, agradeça pela existência de remédios. Aqui no apartamento foi o que é costume: amanheci sentindo que tinham rastelado minha garganta, e no fim do dia a patroa estava espirrando também. Fui até a farmácia e voltei com uma sacola de coquetéis variados para combater os sintomas, mas com gripe não dá pra se fazer muita coisa: é mais engolir um analgésico, outras coisas que permitam que você não desabe pelo caminho e esperar o ciclo da doença se concluir.

E o sono? Cê passa o dia inteiro com sono, mas, quando deita pra dormir, todas aquelas pequenas incomodações que cê mal sentia quando estava em atividade começam a bater na porta, cobrar o seu quinhão. Daí não adianta contar carneirinhos, fazer um balanço demorado de sua vida, o sono simplesmente não chega. Aí, no dia seguinte você está pior ainda.

E pouco a pouco os sintomas vão se amenizando, dependendo de sua resistência, e sumindo. Pronto. Você passou por mais uma provação. É merecedor, dia desses aparece o anjo com a espada incandescente pra te dar os parabéns. Pelo menos até que cê ande desabrigado de novo, ou pegue uma chuva. Ou beije alguém contaminado, como foi o caso da minha senhôura.

Eu estava me sentindo culpado com essa coisa. Afinal, eu passei a nhaca pra ela. Daí, fazia chazinhos, enchia o saco perguntando de minuto a minuto se o tal analgésico já tinha tido efeito, enfim, sendo tão prestativo que tenho certeza de que ela preferia me mandar pra Lua a me ter a seu lado. Ou pra @$##$%, falando nisso.

Aí, fomos dormir. Ela fungando a cada minuto, eu tentando dormir. Daí veio uma dessas peças que o sonho prega na gente. Acordei no meio de um sonho. Ou sonhei que acordei. E vi eles. Os tais maus espíritos da Idade Média.

Eram homenzinhos deformados, uns quinze centímetros de altura, cor de cocô. Grotescos, mesmo. Vozinhas estridentes, comandando suas ações pra lá e pra cá. Pareciam ocupados. Estavam sobre o rosto adormecido de minha esposa. Um deles fazia uma fogueira na testa dela, atiçando as brasas com um pequeno fole. Outro operava o que parecia ser um complicadíssimo alambique, que pingava uma substância resinosa sobre os olhos dela, eu podia ver as ramelas se formando enquanto aquilo pingava. Outra extensão dos tubos de vidro entrava no nariz dela, que ia escorrendo. Um outro dos bichinhos estava com o que parecia ser uma pena de pavão, enfiando aquilo no nariz dela. Cada vez que ele puxava, ela quase espirrava.

Pior: tinha um com uma cara repulsiva enfiando alguma coisa parecida com uma bota (das antigas, de couro, que usavam pra guardar vinho) na orelha dela. Fiquei impressionado com a seriedade do trabalho das coisinhas. Embora estivessem rindo maldosamente o tempo todo, seu trabalho parecia muito bem concatenado, como o dos marujos naqueles navios grandes, a vela. Mais uns dois estavam pendurados no cabelo. Quando olhei pra baixo vi pelo menos uns vinte deles, pulando que nem loucos em cima do corpo dela. O que ia deixá-la dolorida de manhã. Não tinha nenhum em cima de mim. Eu já estava curado. Aí um deles chegou perto da boca aberta dela com uma broca longa, presumo que pra dar dor de garganta. E outro começou a abrir a braguilha daquelas calças engraçadas que usavam, pra mijar dentro da boca dela e causar o mau hálito próprio dos doentes. E foi aquilo a gota d´água.

Peguei meu travesseiro e investi sobre eles como um demônio. Na primeira saraivada de travesseiro, abati uns quatro. Depois comecei a bater nos que estavam pelo corpo dela.
Aí um travesseiro me acertou na cabeça.

- Está louco?

- Mas, querida, os homenzinhos de cocô estavam acabando com você.

- Vai dormir, seu retardado! Pára com essas maluquices, que eu preciso descansar.

Ela manda. Eu obedeço. Mas não vi mais nenhum dos inimigos aquela noite. Passei vigiando, agarrando o travesseiro com firmeza. No outro dia ela levantou melhor. Me senti um herói.

- Viu? Se não fosse por mim você estaria muito mais doente agora.

- É. Você cuidou bem de mim.

E me deu um beijo. Acho que não sabia do que eu estava falando. Mas não me deixei desapontar. Afinal, a vitória era minha.

5 comentários:

João Junior disse...

Vino, foi quase romântico, de uma forma estranha...Afinal, tem homenzinhos de cocô...Meg Ryan nunca contracenaria com homenzinhos de cocô...Parece uma cena de um filme do Charlie Kaufman.

Lidiane disse...

Risos.
Dormir gripado é impossível. Ou quase.
Ainda mais se o (a) ilustríssimo (a) está ao lado.

Eu já gritei berrando. Ele, assustado, berrou junto. Pelo menos não foi travesseirada.
:)


Beijos.

Lidiane disse...

gritei berrando = acordei berrando

Peri disse...

vau te dizer uma coisa, cara, desejava muito que vc tivesse dinheiro pra produzir seu livro, sério. Duas coisas a que seu texto se adequa quanto as necessidades literarias do nosso tempo são:
a ótima construção do texto em si (coerencia, tabulação, ritmo,essas merdas)

e o teor que o publico em geral espera, com muito humor e tudo mais que a maioria dos idiotas chamam de comercial... (acho que precisamos encher nossas barrigas,não é mesmo?)

está de parabens mesmo!
http://www.peri-doalem.blogspot.com/

Peri disse...

se puder entrar em contato, manda pra jonatastb@hotmail.com, se quizer tb adicionar no msn... tenho uns projetos em andamento e seria interessante trocar ideis tb. em suma: tá foda publicar alguma coisa!