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sábado, setembro 29, 2007

Homenzinhos

Você acorda e tem a impressão de que quebraram a sua cabeça em duas e usaram a gema e a clara em alguma receita, deixando só um oco e a casca partida. Daí os olhos parecem inchados, o nariz não funciona direito e seu corpo foi massageado com um pau de macarrão pela irmã mais velha do Maguila. Seu hálito cheira como se tudo o que você comeu de porcarias nos últimos meses voltasse para se vingar e decompor na sua boca. Resfriado é foda.

Não é difícil entender por que na Idade Média o pessoal atribuía muito disso a maus espíritos. Tem que ser particularmente maquiavélico para juntar tantos sintomas desagradáveis em uma só doença. É sério, agradeça pela existência de remédios. Aqui no apartamento foi o que é costume: amanheci sentindo que tinham rastelado minha garganta, e no fim do dia a patroa estava espirrando também. Fui até a farmácia e voltei com uma sacola de coquetéis variados para combater os sintomas, mas com gripe não dá pra se fazer muita coisa: é mais engolir um analgésico, outras coisas que permitam que você não desabe pelo caminho e esperar o ciclo da doença se concluir.

E o sono? Cê passa o dia inteiro com sono, mas, quando deita pra dormir, todas aquelas pequenas incomodações que cê mal sentia quando estava em atividade começam a bater na porta, cobrar o seu quinhão. Daí não adianta contar carneirinhos, fazer um balanço demorado de sua vida, o sono simplesmente não chega. Aí, no dia seguinte você está pior ainda.

E pouco a pouco os sintomas vão se amenizando, dependendo de sua resistência, e sumindo. Pronto. Você passou por mais uma provação. É merecedor, dia desses aparece o anjo com a espada incandescente pra te dar os parabéns. Pelo menos até que cê ande desabrigado de novo, ou pegue uma chuva. Ou beije alguém contaminado, como foi o caso da minha senhôura.

Eu estava me sentindo culpado com essa coisa. Afinal, eu passei a nhaca pra ela. Daí, fazia chazinhos, enchia o saco perguntando de minuto a minuto se o tal analgésico já tinha tido efeito, enfim, sendo tão prestativo que tenho certeza de que ela preferia me mandar pra Lua a me ter a seu lado. Ou pra @$##$%, falando nisso.

Aí, fomos dormir. Ela fungando a cada minuto, eu tentando dormir. Daí veio uma dessas peças que o sonho prega na gente. Acordei no meio de um sonho. Ou sonhei que acordei. E vi eles. Os tais maus espíritos da Idade Média.

Eram homenzinhos deformados, uns quinze centímetros de altura, cor de cocô. Grotescos, mesmo. Vozinhas estridentes, comandando suas ações pra lá e pra cá. Pareciam ocupados. Estavam sobre o rosto adormecido de minha esposa. Um deles fazia uma fogueira na testa dela, atiçando as brasas com um pequeno fole. Outro operava o que parecia ser um complicadíssimo alambique, que pingava uma substância resinosa sobre os olhos dela, eu podia ver as ramelas se formando enquanto aquilo pingava. Outra extensão dos tubos de vidro entrava no nariz dela, que ia escorrendo. Um outro dos bichinhos estava com o que parecia ser uma pena de pavão, enfiando aquilo no nariz dela. Cada vez que ele puxava, ela quase espirrava.

Pior: tinha um com uma cara repulsiva enfiando alguma coisa parecida com uma bota (das antigas, de couro, que usavam pra guardar vinho) na orelha dela. Fiquei impressionado com a seriedade do trabalho das coisinhas. Embora estivessem rindo maldosamente o tempo todo, seu trabalho parecia muito bem concatenado, como o dos marujos naqueles navios grandes, a vela. Mais uns dois estavam pendurados no cabelo. Quando olhei pra baixo vi pelo menos uns vinte deles, pulando que nem loucos em cima do corpo dela. O que ia deixá-la dolorida de manhã. Não tinha nenhum em cima de mim. Eu já estava curado. Aí um deles chegou perto da boca aberta dela com uma broca longa, presumo que pra dar dor de garganta. E outro começou a abrir a braguilha daquelas calças engraçadas que usavam, pra mijar dentro da boca dela e causar o mau hálito próprio dos doentes. E foi aquilo a gota d´água.

Peguei meu travesseiro e investi sobre eles como um demônio. Na primeira saraivada de travesseiro, abati uns quatro. Depois comecei a bater nos que estavam pelo corpo dela.
Aí um travesseiro me acertou na cabeça.

- Está louco?

- Mas, querida, os homenzinhos de cocô estavam acabando com você.

- Vai dormir, seu retardado! Pára com essas maluquices, que eu preciso descansar.

Ela manda. Eu obedeço. Mas não vi mais nenhum dos inimigos aquela noite. Passei vigiando, agarrando o travesseiro com firmeza. No outro dia ela levantou melhor. Me senti um herói.

- Viu? Se não fosse por mim você estaria muito mais doente agora.

- É. Você cuidou bem de mim.

E me deu um beijo. Acho que não sabia do que eu estava falando. Mas não me deixei desapontar. Afinal, a vitória era minha.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Livro: Histórias de Terrir

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Conforme prometido, aí estão os contos reunidos em um livro. É pena que não tenha fundos pra imprimir e enviar para os amigos. Mas fazemos o que podemos.

Cês vão ver que, basicamente, é o que estava no blog, que eu vou excluindo aos pouquinhos, porque sou muito preguiçoso e dá um trabalhão do cão excluir um monte de mensagens. Claro, tudo revisado e arrumado, mais uma diagramação primorosa do Caio e ilustrações fantásticas do Mainardi. Estamos aí.

Quem quiser comentar, eu agradeço. Não sei se sou só eu, mas preciso de um carto feedback que me assegure de que não estou, de alguma maneira, fazendo merda. Mas compreendo se cê tiver numa leseira desgraçada e não se der ao trabalho. Sou bem assim também.

Abração pra todos.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Puteada 11/09

Dia 11 de Setembro de 2001 eu estava tomando um café na frente da TV (caixa maldita de barulho), quando tocou o telefone.

- Alô.

- Alô. E daí, viu o ataque aos Estados Unidos?

Nessas, não sei o que deu, mas entendi “dos” Estados Unidos.

- Ah, vi, sim. Um horror, né?

Não sei se você lembra, mas naquele tempo os EUA estavam mandando ver no Iraque, acertando escolas, hospitais, qualquer coisa que não fosse um alvo militar. Assim, ao ouvir falar as palavras “Estados Unidos” e “ataque” na mesma frase, nada mais natural que assumir que os agressores eram ao americanos. Afinal, era a praxe.

Daí eu estranhar quando o meu amigo saiu comentando “Pô, que horror”, “mais de duas mil pessoas” – que eu achei um eufemismo, tinha morrido muito mais gente. Mas concordei com quase tudo (era manhã, eu ainda estava tomando café) e desliguei, estranhando todo aquele excitamento. Foi o trabalho de desligar e ter que levantar o fone de novo. Outro amigo, outra reação exacerbada.

- Tu viu na TV?

- Vi. Caixa grande, parte da frente de vidro. Fica em cima da estante e grita com você.

- Deixa de ser bobo. Viu o acidente? Naquele momento ainda estavam chamando de “acidente”.

Aí, relutantemente, tirei a TV do Ligeirinho e comecei a assistir a reportagem, com o telefone na mão. “Cagaram no mundo, maninho!!”, gritava a voz no telefone, e eu tentava desengolir a dentadura. Porque mesmo naquela manhã estava claro que era uma taque organizado aos Estados Unidos. Por quem, e de que forma, ainda não sabíamos. Estaríamos diante da Revolução?

A que esperávamos? A que mudaria o mundo e NOS colocaria no topo? Quem sabe não conseguíamos uma boquinha em algum lugar? E, na pior das hipóteses, o Bush tinha ido! Já não era pouca coisa.

De repente o mundo parou. Sendo eu uma parte do mundo, acho que exagerei na colocação.
Deixa eu reformular: o RESTO do mundo parou. Eu fiquei ali, abismado, no silêncio. E tinha um fulano me olhando no canto da sala. A minha mente realizou um rápido cálculo, com o susto – que parece ser o único jeito da minha mente fazer um cálculo rápido – e vi que atirar o café nele não ia adiantar nada. Além do que, ele estava na frente da janela. E era o meu avô.

Fora de brincadeira, meu avô falecido há anos tava ali, com a mesma boina fedorenta que ele se recusava a tirar, o mesmo jeitão de quem não está à vontade junto ao resto da espécie humana, o mesmo tudo. Ele mesmo.

Estava fumando um palheiro de cheiro horrível, cheio de lembranças de infância. Eu estava mais ou menos com a expressão e a atitude daquele quadro “O Grito”, de Munch. O velho me olhou feio. Aí comentou:

- É triste ver um parente se divertindo com a morte de milhares de pessoas.

Até pensei em argumentar “mas eles são americanos”, mas senti que não ia rolar. E também não teria tempo, porque o ruído do mundo retornou, e tudo voltou ao normal. A diferença básica era de que eu havia levado uma mijada e, sim, me sentia envergonhado de minha óbvia falta de sensibilidade. Como estou até agora. Bate. Bate, que eu güento!!!

sexta-feira, agosto 17, 2007

O Velho

Era um dia frio de inverno, um desses em que o sereno começa a aparecer já no fim da tarde e o sol parece ter olhado para baixo, acordado e ido o mais distante possível da cambada de malucos do planetinha azul. Também era dia de jogo de futebol, embora o sol, o sereno e eu não pudéssemos ligar menos significado à coisa. Mas acontece que um amigo tinha chegado à cidade e, em vez de ficarmos em casa tomando vinho quente com canela e conversando (como sugeri), ele resolveu que era imprescindível que saíssemos e observássemos o movimento da rua. Um desses caras recém-divorciados que resolvem se considerar um presente de Deus para as mulheres e recuperar o tempo perdido, você conhece o tipo.

Aí, acabamos no segundo andar de um bar, ouvindo os gritos do térreo, onde estavam projetando o jogo em um telão. Eu não entendia como as pessoas podiam sair de casa em uma tarde daquelas para assistir vinte e dois caras tentando colocar uma bola através de quatro traves e se carneando no processo. Mas eu sou eu, e eles são eles. Uma filosofia que até então ninguém havia contrariado. Mas o mais chato não era o meu amigo fazendo olhares para meninas da metade da idade dele, nem os gritos que vinham de baixo. Era o velho.

Óculos de tartaruga, um enorme sobretudo preto, cabelo e barbas brancas e uma testa que daria pouso a mosquitos de qualquer capacidade de carga. Ficava bebendo e gritando “carpe diem” a espaços curtos de tempo. Às vezes erguia a caneca e brindava em nossa direção. Eu, hein?

A coisa seguiu assim por mais ou menos meia hora, até que decidi erguer a taça na direção do velho, também, e brindei a resposta para a frase dele:

- Memento Mori.

CRASH!!!

Era a caneca do velho quebrando no chão. Me amarro numa onomatopéia. Ele só ficou nos olhando com aquela cara espantada de quem vê pela primeira vez um prato de sushi, imóvel. Claro, comecei a me arrepender. Não tinha sido bonito. Mas fora instintivo, quase. Enquanto o velho gritava “aproveite o dia”, eu tinha respondido “lembre-se que morrerás”. Mas era a resposta, não era? As duas filosofias discordantes. Só que memento mori não deveria ser usada em um bar, ainda mais com um senhor que não precisava lembrar que memento mori. Pensei em pedir desculpas. Mas ele levantou e se dirigiu à nossa mesa:

- Você é da ordem?

- Não. Eu sou do caos. Sabe, tem essa teoria: a ordem tende a degenerar em caos, enquanto o caos sempre vai crescer a níveis mais complexos de entropia. Daí, acho que é melhor ficar do lado que está vencendo...

- Quero dizer da ordem dos segredos.

- Hã... não?

- Ah, desculpe. É que era uma das senhas que nós usávamos. Antigamente.

- Arram...

Tá, eu ia dizer o quê, então? Aliás, qualquer um que tenha visto meu quarto sabe que não sou muito de ordens... Depois, se começasse a concordar com o velho era capaz de ele me convidar a sacrificar uma cabra qualquer dia e eu, embora goste de churrasco, não valorizo muito o sangue. Exceto em morcilhas.

Mas era tarde: reminiscências tinham assaltado o cara:

- Sabe... nós nos reuníamos nesse lugar, tempos atrás. Esse bar nem tinha sido construído.

- Arram.

- Buscávamos conhecimentos perdidos. Vida longa, influência... mas já faz muito tempo...

- Arram.

- (Acho que esse velho tá a fim de ti.)

- (Calaboca.)

- Enfim, todos se foram. Só fiquei eu. Mas descobri algumas coisas no caminho...

- Arram.

- Bom, eu já vou indo. Prazer em conhecer vocês.

- Arram.

E foi isso. Dois meses depois meu amigo me liga, apavorado, dizendo que achou uma foto do velho, e eu sugeri que eles se procurassem, não existe essa história de certo ou errado, se duas pessoas se gostam. Daí ele apareceu com uma cópia da foto no outro final de semana, e datava de quase dois séculos atrás. Era o velho, embora a barba não estivesse tão comprida, nem tão branca. A legenda dizia: A Ordem dos Segredos – 1812. Dissidentes do positivismo no Rio Grande do Sul, com viés místico, a seita desfez-se e desapareceu na história.

Talvez por uma boa razão. Fica difícil esconder a imortalidade se você fica aparecendo na história toda hora. Voltei ao bar depois. Até enxerguei o velho outras vezes. Mas preferi não me aproximar muito. E você, faria o quê? Ademais, a ideologia positivista sempre pareceu com algo que o gato cospe no tapete, pra mim. Nem quero ouvir falar da dissidência.

terça-feira, agosto 14, 2007

O Copo

Neste ponto você deve estar me considerando um puta mentiroso ou uma espécie de ímã para coisas estranhas. Se isso for verdade, você provavelmente está certo. Tive a fortuna de nascer em uma data e hora estranhas: sexta-feira 13, à uma e treze da tarde (13:13). O quarto do hospital era X13 (não lembro do andar, mas se você for considerar as coincidências até aqui, devia ser 313). E lembro de ter lido uma vez em David Copperfield que antigamente acreditavam que as crianças nascidas na sexta-feira 13 veriam fantasmas e poderiam conversar com eles, uma dessas coisas que ingleses bêbados inventam. Então, se você está buscando uma explicação de algum tipo, pode atribuir a isso. Pessoalmente, acho que tem mais a ver com sincronicidade – que é o nome científico da “coincidência”, com alguns firileques por trás. Tais coisas acontecem porque há um padrão ainda não entendido do qual faço parte. As coisas conspiram para acontecer.

Ou você pode continuar pensando que eu sou um puta mentiroso.

Agora, considere isso: e se, numa dessas histórias absurdas eu te apresentasse ao conceito de um copo assombrado? Pois foi. (Não me bate!!!) E não era um copo qualquer, era um “martelinho”, aqueles pequenos que os bares e boates têm de rodo mas usam pouco, apenas para doses sem gelo ou como medidor de alguma outra coisa. (Por que é que um “martelinho” não é um copo qualquer? Ah, aí não sei explicar. Sei que aquele não era. Mas estou me adiantando – pra variar.)

E agora eu vou ter que introduzir você para alguns de meus maus (cacofônico, né?) hábitos, quando saio à noite. Meu consumo de destilados é normalmente restrito à caipirinha. Acho a maioria das bebidas que passa por alambique amarga, sem graça e intoxicante demais. Mas logo após à tardinha, quando a noite é jovem e o dia frio, às vezes me animo a tomar uma dose de tequila (com limão e sal) para “limpar a garganta”. Quando a festa promete, quando não estou dirigindo, quando me convém. Daí, uma noite dessas, pedi uma tequila e aconteceu de eu reparar que o barman me serviu no único copo verde que tinha na prateleira. Até fiz um comentário engraçadinho a respeito, que ele respondeu com um sorriso profissional e chateado demais para qualquer esperança de entabular uma conversação.

Aí coloquei o sal no punho, chupei o limão, dei umas bochechadas naquela coisa, virei a tequila na boca, meus olhos se encheram de lágrimas e engoli. O mundo deu duas piruetas, como de praxe, senti as bochechas inflamando, pensei que ia explodir e fiquei louco por uma cerveja. Fiz sinal para o barman, acenando pra ele com a consumação.
E ele derrubou o copo que estava segurando. Todo mundo olhou pra ele, me fitando como se estivesse olhando para uma alma chamando por ele de dentro do Inferno. Aí todo mundo me olhou. Pensei em entrar pra baixo da cadeira, mas aquilo provavelmente só iria fazer ainda mais gente me olhar curiosa. E fiquei ali, petrificado, com a consumação entre os dedos. Meus olhos deviam estar tão arregalados que fiquei surpreso em não ter dado uma olhada na minha cara pelo lado de fora. Aí todo mundo voltou às conversas, o clima pareceu reaquecer, e eu olhei de novo pro barman.

Levei um susto. Ele estava do meu lado, olhando pra mim como se eu tivesse pedido que ele acendesse meu baseado. Ou como se ele tivesse decidido que eu era a mulher da vida dele, sem reparar na careca e no cavanhaque. Ele balbuciou:

- M-mário?

- Ah, não. Essa é velha. – Respondi.

- É você?

- Não, eu sou o Sunda, me pergunta por quê.

Aí ele agitou a cabeça pareceu se tranqüilizar e atendeu o pedido do cara que estava do meu lado. Claro que fiquei puto, mas, dada a reação anterior dele, não protestei. Vai que ele pegasse um facão debaixo do balcão e vestisse uma máscara de esqui...

Continuei acenando com a consumação. Ele continuou me ignorando. Até que eu estava agitando a coisa como se fosse um sinalizador para orientar o pouso de aviões. Aí ele chegou pra mim, mal-humorado:

- Sim?

- Eu imploro uma ceva.

- O.K.

Eu já nem estava muito a fim de beber, mas insistindo por princípio. Ele voltou com a long neck e olhou pra mim de um jeito estranho (de novo). Será que ia me passar uma cantada?

- O que você fez?

Meu sangue gelou. De repente senti uma necessidade bárbara de confessar que eu não tinha defendido meu amigo Bolota quando ele foi acusado de matar as galinhas do vizinho (era um cachorro, tá?) e condenado à morte. Felizmente, não fiz isso.

- Como assim?

- A história do disfarce.

- Cara, eu não sei do que cê tá falando. Sempre fui feio assim.

Ele me olhou engraçado, depois olhou para o relógio:

- Você vai ficar até o fim do show?

Pior que tavam tocando música. Nem tinha reparado, com a irritação por não ser servido. Aliás, o show tinha toda a cara de ser bom.

- E se eu ficar?

- Eu quero conversar com você.

- Olha, não me leva a mal, mas eu sou hetero...

- Somos dois. Não tem nada a ver com isso. Você pode ficar? Se não eu te dou o telefone daqui...

- Eu fico.

Preferia não assumir compromisso.



Então, tá. O show era legal. Beatles, principalmente, e outros clássicos do Rock. Logo que acabou o pessoal começou a evacuar o bar. Tinham boates a freqüentar, e o bar não ficava aberto muito mais. Aí o barman chegou, com camiseta e jeans em vez do uniforme azul e cinza, e sentou do meu lado. E me contou uma história.

Parece que a galera do bar tinha uma vida divertida. Depois que o trabalho encerrava, eles se juntavam e bebiam os intestinos pra fora. Sempre era alguma coisa boa, não o que serviam para os clientes. Um dia, bêbados, resolveram jogar o “jogo do copo”. E a coisa tinha funcionado. Só que em algum ponto deu merda, ele não mencionou o quê exatamente, mas parece que o “espírito” do copo queria as bolas deles, então alguém levantou o copo e, na hora, faltou luz.

Admito que eu também teria levado um cagaço, mas o fato é que um cara, chamado Mário, tinha morrido em um acidente aquele dia. Era ele o cara que tinha levantado o copo. Que, por sinal, ficou verde.

“Tá e daí?” Daí que, depois que eu tomei a tequila, quem o barman tinha visto em meu lugar era o tal Mário. E ele me propôs um teste: mais uma tequila, por conta da casa. Neguei veementemente e saí dali.

Até parece. De graça, até ônibus errado... tomei o troço e novamente o cara me olhou como se estivesse apaixonado por mim.

- Mário, é você.

- Cara, não viaja. Estou me vendo no espelho. Não mudei nada, não.

Mas dois outros garçons do bar tinham começado a gritar. Bom, pra resumir a ópera, consegui sair ileso, sem buracos de bala (um cara chegou a puxar um revólver que estava escondido embaixo do balcão), e deixei todo mundo estupefato lá. Todos me viram como o tal Mário, por mais infame que seja o nome. E foi consenso geral tirar o copo da prateleira, porque quebrar metia medo em todos eles. Todos se perguntavam por quê o troço era só comigo. Bão, nem eu sei. Mas pode ter alguma coisa a ver com o início deste texto. Cheguei a imaginar se o Mário não teria uma esposa gostosa que eu pudesse visitar com o copo e uma garrafa de tequila, mas não parecia uma coisa sobre a qual ser leviano.

O mais perto que consegui chegar de uma resposta foi o conceito de “epicentro”. Alguém fornece a energia psíquica necessária para a manifestação sobrenatural. No caso, eu, bebendo do copo. Mas nunca tinha acontecido antes. Se quiser que eu seja mais claro, vou dizer com todas as palavras: não sei. E ficamos assim.

O bom foi que, até tudo ser constatado, bebi um monte de graça. E nunca mais voltei, nem sei se tiraram mesmo o copo. Abração.

sábado, agosto 04, 2007

O Tapete (I)

A dona da lojinha de lembranças ficava numa felicidade orgásmica quando me via. Desde que ela tinha me mostrou uma escultura que confessou não saber o que era (mulher, três cabeças, seis braços) e eu lhe disse que era a Hécate, a deusa das bruxas. Aí ela vinha com uma avalanche de perguntas sempre que eu entrava lá, como se eu fosse um tipo de especialista em besteirologia.

- Esse elefantinho traz sorte, né?

- O elefantinho é Ganesh, eu acho. Deus indiano. Facilita as jornadas. Montava num rato.

- Não tem rato na estatueta.

- Pode tar embaixo do saiote dele. Que me lembre, um elefante é consideravelmente maior que um rato.

- Tem certeza?

- Sim, um elefante é bem maior que um rato.

- Estou falando do nome.

- Não.

Aí ela ia, anotava “Ganesh, facilita as jornadas” em um adesivo e colava na estatueta mesmo assim. Sempre tinha alguma coisa. Ah, ela também me mostrava cada item da loja quando me via olhando alguma coisa:

- Esse chacal aí é Anúbis. Ele protege os lares.

- Achei que ele fosse juiz dos mortos.

- É, mas ele protege os lares também. A da cabeça de gato é...

- ...Bast. Eu sei. Li num gibi. O que é que ela protege?

- Ela traz sorte.

- Por quê?

- Não sei, tá no adesivo.

- O. K. – como eu sabia o tipo de informações que andava nos adesivos, não dava lá muita bola. Foi lá que eu vi o tapete.

- Esse tapete...

- Ah, tem muitos símbolos nele. Aquele ali é o olho de Hórus, que era um falcão. Eu sei que o símbolo espanta o mau-olhado.

Hórus deveria estar numa jornada dupla de trabalho. Eu achava que ele era o Sol. Mas insisti:

- E os outros símbolos?

- Ah, esses eu não sei. Esse aqui é indiano. Essa aqui do lado é aquela que tu me indicaste outro dia.

- Hécate.

- Isso.

“Tapetinho eclético”, pensei. Era uma misturada de símbolos religiosos com uma cara suspeita, mas bonitinho. Também só faltava uma etiqueta de “usado” nele. Perguntei o preço.

- Cem reais.

Bom, não era caro. E eu precisava de um outro tapete pra sala, porque quase tinha queimado o oficial com um cigarro, o que tinha deixado a patroa com um olhar azedo por três dias. Comprei, e ela me deu instruções a respeito de como pendurá-lo na parede para atrair bons fluidos. Chegando em casa, estendi na sala por cima do “oficial” e deitei em cima, como costumava fazer. Acendi um cigarro e fiquei pensando em meu óbvio grande destino como escritor e nas coisas magníficas que escreveria quando achasse que estava “pronto”.

Aí me imaginei num seminário. Eu poderia até concluir uma especialização e preencher o que eu achava que era uma falha nos cursos literários: todos achavam que “literatura séria” não incluía ficção científica, livros de fantasia nem de terror. Taí, poderia ensinar essas coisas. Comentei em voz alta:

- Professor de ficção científica e de literatura de horror... – com um sorriso nos lábios.
Nem lembrei de incluir quadrinhos.

Aí aconteceu. A próxima coisa que eu vi foi um auditório cheio de estudantes. Eu estava parado na frente dele, cheio de anotações na mão. Um silêncio respeitoso desceu assim que perceberam que eu estava ali. Um fulano antipático chegou para a frente, pegou o microfone e comentou: “Seja bem-vindo, professor. Desculpe, mas não notamos que o senhor havia chegado.”

“Havia”? Quem é que usa isso em uma sentença hoje em dia? Olhei para o auditório cheio, sentindo meus bagos encolherem ao tamanho de duas uvas e um friozinho começando a crescer na minha barriga.

- Posso colocar o primeiro slide?

Quem tinha perguntado era o cada de óculos e terno, o antipático. Aquiesci com a cabeça. Claro que podia. Se ele tivesse perguntado se era pra trazer o orangotango, eu não teria reagido diferente. Apareceu um slide em uma tela enorme atrás de mim. Era o tema da palestra e descrição de quem eu era, meus trabalhos e meu currículo. Acho que a única coisa que eu sabia ali era o nome. E, que eu soubesse, fora alguns arroubos de juventude nunca tinha pensado em escrever um livro de terror. Mas li alto no microfone os dados que estavam ali. Uma salva de palmas. Ei, não era tão ruim, afinal. Pensei em me curvar pra agradecer, num estilo teatral. O slide mudou de novo, mostrando o que parecia ser uma pintura de Goya. Um grotesco. Eu conhecia aquilo. Mas o que é que eu pretendia falar a respeito?

As anotações: no primeiro cartão (tinha umas folhas, também, que descobri ser o comentário final, depois das perguntas, pra encerrar a palestra. Eu podia tentar pular as perguntas.) estava escrito:

Grotesco. Slide 1, pintura de Goya. Por que é que as deformidades são tão notáveis?Por que a fascinação pelos traços exagerados na caricatura, na arte? A mente humana apreende processos comunicacionais, mas realiza as conexões entre os processos ela mesma. Vemos algo porque queremos ver. Essa percepção subjetiva parece nos atrair para mundos além do mundo. Às vezes sombrios, às vezes fantásticos. De onde vem essa necessidade ficcional?

Confesso que não sabia. Aliás, as dicas dos cartões eram prolixas, mas eu não tinha como juntá-las em uma sentença. Olhei de novo para a pintura. Bão, começar descrevendo a coisa era um começo. E também uma redundância, mas melhor que ficar quieto. Olhei para a pintura e comecei a descrever, ressaltando os traços caricaturais. Tinha até uma legenda com o nome do quadro. Eu nunca imaginei que poderia ser tão organizado.

Fluiu. O engraçado é que fluiu. De maneira natural, apareciam coisas que havia lido eras atrás e deveriam estar guardadas em algum canto da montanha de lixo que eu chamava de “cérebro”. E as anotações eram suficientes para me manter no assunto, só precisava evitar divagar como era meu costume. A única coisa que eu tinha que fazer era dar “à audiência” um tempo malandro para olhar cada slide antes de começar a falar. Tempo esse que eu usava lendo os comentários nas fichas para tentar transformá-los em um discurso coerente. Não era difícil. O tal professor parecia ter as mesmas referências e opiniões que eu. Além do mesmo nome. Às vezes aparecia alguma referência teórica desconhecida que era recortada do assunto. Se estava no slide, eu terminava de falar e lia em voz alta o trecho e o nome do autor/a. Sempre vinha a propósito.

O segundo slide era de uma pintura de Bosch, depois começaram a aparecer os autores e pequenas citações das obras. Todas conhecidas e queridas. Estava me sentindo em casa ali. Só faltou tirar os sapatos. Li o discurso final. Não houve perguntas. Fui ovacionado no fim.

E levantei a cabeça do tapete, o cigarro apagado entre os lábios. “Que loucura.”, pensei. Nisso a minha proprietária apareceu com sacolas de supermercado, anunciou que estava com vontade de comer um arroz com galinha “campeiro” e me relegou à cozinha por uma hora. Depois me chamou de volta, encantada com a “tapeçaria” que eu tinha comprado e instando para que eu pendurasse o troço na parede da sala. Não quis comentar que era um trapo bonitinho para eu deitar em cima e não arriscar queimar o tapete “oficial”.

O Tapete (II)

Na outra tarde foi a mesma coisa: deitei no tapete e fiquei imaginando bobagens, mas nada aconteceu até que eu comentasse “investigador do sobrenatural” em voz alta. E eu estava em uma casa caindo aos pedaços, cheio de baganas de cigarro em volta e máquinas esquisitas por todo canto. Havia livros em torno de mim. Inclusive um livrinho vagabundo, escrito à máquina e mimeografado, chamado “Poltergeist”, que continha o que pareciam ser descrições de fenômenos paranormais relacionados a espíritos brincalhões no território brasileiro. Datados em ordem cronológica, com descrição dos equipamentos usados e os relatos dos moradores dos locais.

Agora, se você acha que eu estava com medo, se enganou feio: medo não descreve o que eu estava sentindo. Pavor. Pavor seria melhor, especialmente depois que eu li a descrição do poltergeist que era um vulto negro, só entrevisto, nunca visto, com unhas afiadas que nem navalha e que cortava as pessoas e cadeiras da casa, mesmo elas estando acordadas ou juntas. Resolvi fechar o livro e prestar atenção aos arredores.
Depois de um tempo considerável meu olhar pousou em umas anotações em cima de uma mesa. Tava na cara que a letra era minha, porque só eu conseguiria entender aquilo. E isso porque estou acostumado com a grafia estranha que sempre sai quando escrevo coisas à mão: o “F” virando um “T”, o “E” um “P”, e assim ia. A última frase era: “a coisa mais assustadora que pode acontecer a alguém é estar em uma casa antiga e sem luzes, na companhia de si mesmo”. Senti simpatia pelo cara. Aquilo queria dizer que ele também estava se borrando todo. Pelo jeito, eu não devia ser grande coisa como “investigador do sobrenatural”. Aliás, minha imaginação superexcitada estava me levando a ver sombras se movendo em todos os cantos. Até sussurros ao longe. Experimentei usar uma das máquinas, mas o troço só bipou na minha cara.

Experimentei outra. Depois outra. A única coisa que eu consegui usar foi uma lanterna de luz negra, que captou traços orgânicos em toda parte ao meu redor, sob a forma insidiosa de insetos e cocozinhos de ratos. Nenhuma poça de sangue (nem sei de onde é que eu tirei isso), nenhum membro decepado (acho que isso eu tinha lembrado do filme Evil Dead). Aí me pareceu ouvir passos que se aproximavam. E uma mão de couro me agarrou pelo ombro.

Quase me caguei. Era um cada (de luvas) com óculos redondos e cara de rato que me disse que tinha vindo me render. Era dele o próximo turno de vigia. Agradeci, juntei as anotações, deixei os livros com ele e saí de lá. Passei pela porta e

Abri os olhos e um jorro de luz invadiu meus olhos. A janela da sala estava aberta. Levantei do tapete. Se eu não tivesse tão assustado, aquela experiência teria sido uma das mais chatas da minha vida inteira. Precisava lembrar disso – e da anotação – pra usar na próxima palestra que fosse fazer.

Mas assim foi: bastava deitar sobre o tapetinho – que durante o dia ficava disfarçado como tapeçaria – e dizer o que queria para sonhar (ou viver) histórias com que se sonhava de uma forma tão real como se estivesse vivendo-as de verdade. Como se você entrasse em sua imaginação e pudesse viver lá dentro por períodos variáveis de tempo. Dependia do que te acordasse.

O tempo mais longo que fiquei nesse estado foram três semanas como mergulhador, descobrindo aos poucos os segredos de Atlântida. Foram semanas fascinantes, mas “acordei” poucos segundos após ter adormecido – ou invocado a visão, sei lá. Também fiquei muito tempo em Jerusalém, acompanhando os últimos dias de Jesus. Até apertei a mão dele. Ele não entendeu muito o fato de eu balançar a mão pra cima e pra baixo, mas tomou como um gesto de encorajamento. A hora de dúvida dele, em que ele pedia que o cálice fosse afastado, eu perdi porque estava dormindo. Minhas viagens mais curtas foram como “viajante do tempo” (que era uma tentativa de fazer a mesma coisa, visitar Jesus, mas acho que a máquina explodiu na minha cara) e “lendo o Livro do Destino”, que eu tirei de um conto da mitologia árabe, o Livro onde tudo está escrito, passado e futuro de todos. Nem bem abri o troço e uma coisa que eu não vi falou algo em uma língua que eu não conhecia, me agarrou pelo ombro e me atirou pra fora. Acordei com dor nas costas. Na sala, claro.

Minha esposa ficava intrigada com a minha mania de “cochilar” de tarde (nunca fui disso), mas naquela sala vivi coisas fascinantes: viajei no Nautillus com Nemo; visitei o Espaço e as Colônias terrestres em outros planetas, no futuro; conheci a Arca, a Biblioteca Definitiva, depois da extinção da Humanidade; brinquei com os Deuses do Olimpo e visitei a Biblioteca de Alexandria. Nadei com sereias (vampiras, mas isso eu descobri depois), conheci Arthur e Merlin, fui analisado por Freud (e acabei dando um tapa na careca dele, só pra poder dizer que tinha feito isso), ouvi Beethoven compor a Nona, tentei ajudar Dom Quixote, ajudei a matar Drácula, viajei com Gulliver. Só pra citar algumas coisas. Não importava se ficção ou realidade, o tapete me levava onde eu pedia, no papel que me impusesse. Conheci a alegria selvagem e o remorso de ser um lobisomem em lua cheia e acordei enjoado pelo gosto de carne humana. Visitei as profundezas do mar e tumbas de heróis míticos. Estava vivendo vidas e vidas fora de minha vida normal. O tapete era a melhor coisa que tinha me acontecido.

Até que a minha esposa passou na minha frente com uma calça particularmente apertada. Brinquei com ela, alguma coisa sobre rebolar pra mim. Ela sorriu e falou, de brincadeira:

- Vai pro inferno.

Eu estava sobre o tapete.

Sei que disse que o maior tempo que estive sonhando foi por três semanas. Mas minha visita ao inferno durou mais. Muito mais. Ou isso era por causa do tempo subjetivo. Não faço idéia de quanto tempo passei por lá. Uma vida seria pouco para descrever as coisas que vi, quantas planícies de vidro moído tive que atravessar nu, quanto tempo nadei em lagos de chamas. Tive que atravessar o Inferno para sair. Todo ele. Dos bosques, sendo perseguido por cachorros com cabeças humanas até as regiões geladas. Não vou descrever isso aqui. Não posso. A maior parte das lembranças eu bloqueei, as outras não são isentas de dor. Tudo era dor.

Minha esposa me segurava nos braços quando acordei. Eu estava gritando. Foi nesse dia que meu cabelo levou um puxão firme em direção ao grisalho, e nesse dia coloquei o tapete num balde de metal, joguei álcool por cima e o queimei. A coisa gritou como algo vivo, e tentou sair do balde, mas impedi com minhas mãos, depois com uma panela. Até que parou de se mexer e de lutar lá dentro.

Se você acha que foi bobagem, que agi por trauma, tudo bem. Eu também acho. E sei que o tapete poderia ter me levado a muitos outros lugares extraordinários. Por exemplo, nunca vi o céu. Mas os (anos?) (séculos?) que passei no Inferno não deixam que eu me arrependa do que fiz. Nada que permita uma viagem assim pode ser benigno. Quando penso em me arrepender olho para as cicatrizes em minhas mãos. Penso na coisa berrando e tentando me arrastar para a fogueira com ela. E então me tranqüilizo.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Peta (I)

O Universo é cheio de mistérios e leis imutáveis de que a Física sequer suspeita. Uma dela diz que o encontro “casual” com velhos conhecidos (repare: eu não disse “saudosos”) só acontece quando você está sozinho.

E foi numa sorveteria. Se fosse num bar a coisa teria sido mais suportável. Mas estava prestes a encher as minhas artérias de bobagens ricas e doces, acompanhadas de sorvete de nozes (eu adoro), quando sinto a mão do Destino em meu ombro. Viro e não era o Destino, era o Peta. Grande como a vida. Duas vezes mais feio. Umas quatro mais sujo, mas isso era normal nele: ainda estava no ramo da mecânica, e não há sabão áspero o suficiente para remover completamente traços de óleo queimado das unhas de um sujeito. (Corrigi a palavra “sujeito” aqui. Tinha saído “sujeiro”. Ato falho...) Umas oito mais chato.

Começou a me perguntar pela minha vida, se horrorizou ao saber que eu tinha juntado as escovas de dentes com a minha proprietária, queria saber o quanto eu estava ganhando e em meus planos para o futuro. Falou de seu negócio, de prospecções imobiliárias, invejou pessoas que estavam ganhando rios de dinheiro. Depois tentou falar de sua vida sexual. Aí eu lembrei de como podia me livrar dele sem usa violência, bastava perguntar o que aconteceu em determinada noite da vida dele. Isso correria com ele mais efetivamente que se eu puxasse uma arma e comentasse que “não lembrava se tinha uma bala ou se já tinham ido todas. Ele se sentia com sorte?”

Agora, pra você entender isso eu vou ter que contar a história do apelido do Peta. “Peta” é a contração de “chupeta”, e com isso não me refiro ao troço usado para calar a boca dos bebês, e sim ao ato de sexo oral. O apelido completo era “Chupeta de Fantasma”. Como não dava pra falar isso em certos recintos, foi contraído para “Peta”. É, eu sei. Apelido estranho.

Teve uma época em que o Peta estava com uma oficina em uma cidade do interior que havia acabado de receber uma universidade particular. Isso quer dizer “expansão”, “lucros”. A alta rotatividade de clientes na oficina fazia com que ele viajasse até a cidade vizinha para comprar peças, em vez de encomendá-las como fazia até recentemente, porque demoravam muito a chegar. De costume ia de tarde e voltava à noite com as peças necessárias.

Numa dessas noites viu uma figura parada no meio da estrada. Era uma moça, muito bonita, vestida de branco e sem qualquer tipo de luz na volta. Sentiu um arrepio percorrer a espinha, e passou direto. O problema é que a desgraçada dessa moça pareceu se fixar nele, aparecia todas as vezes que ele passava por ali. Um dia ele criou coragem a parou do lado dela:

- Posso ajudar em alguma coisa?

- Pode me dar uma carona até a cidade? Meu pai e minha mãe estão preocupados e não sabem o que aconteceu comigo, eu tenho que ir até lá avisá-los.

Ele engoliu em seco, e abriu a porta. Ela entrou rápido demais para ele se sentir confortável. Quero dizer, rápido mesmo. De não se ver como. Eles partiram.

Quando estavam chegando em uma curva, uns setecentos metros adiante, ela simplesmente abaixou em direção a ele, abriu seu zíper e começou a chupar o pau do Peta. Ele ficou abismado, mas deixou acontecer. Dirigiu mais alguns minutos assim, recebendo uma chupeta gostosa, e percebeu que estava chegando uma curva perigosa. Tentou tirar a garota dali, mas não conseguiu. E gozou durante a curva, na boca dela. No instante do clímax percebeu que um caminhão vinha do lado errado da pista, em sua direção. A luz dos faróis deixou tudo muito difícil de ver. Peta pensou “Tou morto”, e entregou tudo na mão de Deus.

Claro que ele não morreu, senão não tinha me encontrado na sorveteria anos mais tarde. No instante seguinte ele estava sozinho no carro. Nem sinal da menina, sem sinal do caminhão. Conseguiu, a custo, evitar uma capotagem, só pelo susto. Parou o carro até conseguir parar de tremer, depois voltou pra cidade viajando a alguma coisa entre dois e cinco quilômetros por hora. Quase se cagou quando aconteceu.

Mais tarde ele descobriu que havia acontecido quase igual com um casal, três anos atrás, na mesma curva em que ele viu o caminhão-fantasma: a moça parecia ter se sentido romântica na estrada deserta, estavam indo devagar, ela enchendo a boca e ele tentando se concentrar na estrada. Quando um caminhão apareceu no lado errado da pista. BUM. Três pessoas mortas. A história virou como que uma piada por ali, porque com o choque a menina (era nova, uns dezessete anos) tinha literalmente engolido o pau do cara e teria sufocado com aquilo se não tivesse tido a parte de baixo do seu corpo amassada até parecer uma torta de morangos. Todo mundo morreu na hora.

Peta (II)

Uma boa história de terror terminaria aqui. Sem problemas, apenas uma noite, um susto, algo pra levar para o resto da vida e passar adiante. Só que isso aqui não é uma história de terror. Pelo menos, não uma boa.

O Peta continuou a ver a moça fantasma. Acho que porque não morreu ali. Cada vez que ele passava pelo trecho à noite, ela estava lá. E ele começou a pegar ela de novo. Toda noite que ele viajava pela estrada a mesma coisa: pegava ela, era chupado e depois vinha o caminhão fantasma. Ele nem se preocupava em desviar. Sabia que era só uma luz na noite, pouco mais estranha que um peido colorido, sem substância. Também sabia que a moça que estava ao seu lado não era mais humana, nem remotamente. Mas sua boca era quente e molhada, e ele não se importava. Até que um dia ele resolveu ir adiante com a “moça”. Ele não estava mais nem um pouco assustado. E parou o carro no trajeto, para tentar comer a moça fantasma.

Uns dizem que o que ele viu do seu lado foi o que a polícia encontrou nos destroços do carro dos noivos, anos antes. Outros que foi algo de natureza diferente. Chegaram a ir atrás do Peta no banheiro pra ver a menina tinha devorado as partes dele. Não tinha. Mas ele mudou. O cabelo dele começou a mostrar sinais grisalhos de uma hora para a outra, e em dois anos ficou completamente branco. E durante meses ele olhava para você com um jeito vazio, incapaz de tirar da cabeça o que quer que tenha visto.

Ele nunca comentou o que aconteceu com ninguém.

Daí, na sorveteria, só o que eu tive que fazer foi perguntar a ele:

- Mas me diz uma coisa, Peta, que eu tenho curiosidade de saber: o que foi que houve aquela noite na estrada? Cê comentava tudo com a gente, depois daquilo ficou calado... hein? Que aconteceu?

Imediatamente ele fechou a cara, lembrou que tinha ficado de dar banho no gato da sobrinha e saiu de minha vida. Espero que definitivamente. É, eu sei que foi um golpe baixo. Também sei que ele deve ter se sentido infeliz. Mas, se você está pensando nisso, manda seu telefone que eu envio pro Peta e ele entra em contato com você. Só faça uma anotação mental de como mandá-lo embora, caso precisem, senão ele gruda em você que nem chiclete e pode acabar morando na sua casa. E não diga que não avisei.

sexta-feira, julho 27, 2007

Falcon

São seis horas da manhã. Faltam só duas. Eu já tentei de tudo para não dormir. Agora estou enfiando as unhas nas palmas das mãos. Já sai sangue, mas isso não pára o sono. E eu não posso dormir, porque sei que não vou acordar. Em vez disso, repasso os acontecimentos em minha cabeça.

Noite de natal. Eu e meus primos fazendo o possível para tornar a vida de todos insuportável com pistolas de água e estalinhos. Até que chegou a hora de abrir os presentes. Eu já sabia o que vinha pela frente: meu pai tinha me prometido o boneco do Falcon, defensor da Justiça, protetor dos Inocentes, a última palavra em boneco de ação. Se você está rindo é porque não viu as propagandas da época. Davam a impressão de que o Falcon vinha junto com um universo paralelo inteiro, cheio de brinquedos bélicos. Educativo ao extremo.

Então abri a caixa do Paladino da Justiça. Era um ruivo barbudo com um colante cinza. Calças camufladas e botinas, mais um cinto cheio de troços que eu não pescava muito, não. Brinquei com o boneco até cansar e ficar quase caindo de sono. Meu primo ficava me incomodando, jogando água no boneco, e estalinhos que ele dizia serem granadas. Falcon terminou a noite no lugar de honra de minha prateleira de brinquedos, uma clara exceção à regra implícita (para mim) de que brinquedos não precisavam ser guardados, simplesmente se materializavam em seus lugares no outro dia.

Levantei no outro dia com uma guerra na cabeça: eu era alto, barbudo e ruivo, e enfrentava o Mal. Me vesti, peguei o boneco e saí zanzando pela casa, na direção vaga de um provável café da manhã. Quando eu entrei na cozinha, meu primo olhou para mim e saiu, apavorado. Não importava o quanto eu tentasse perguntar pra ele o que é que tinha acontecido, ele não me deixava chegar perto. Ficou a impressão de que eu tinha batido nele. O que era estranho, porque o primo em questão tinha mais ou menos a aparência e consistência de uma parede de tijolos, sendo dois anos mais velho do que eu. Na época isso fazia toda a diferença.

Rápido eu esqueci do que tinha acontecido, um mundo de aventuras me esperava. Metaforicamente. Fiquei no galinheiro, brincando com minha coleção de bonecos (até uma boneca de pano velha, jogada fora por minha irmã, servia como antagonista para o Falcon. Precisava conseguir uns inimigos mais feios). Teve uma hora que uma galinha que recém tinha descascado uma ninhada de doze pintinhos me atacou por estar perto demais, o que levou a tropa Falcon a uma retirada estratégica até perto de uma sanga.

Nada muito ousado, podia ver a chácara (onde a família havia se reunido para passar o feriado) de longe. Aí aconteceu a desgraça. Um filhote de ovelheiro louco pra brincar pegou o Falcon e saiu correndo. Em minha ânsia para recuperar o boneco acabei puxando da boca do bicho – que ficou ressentido e saiu ganindo. Junto com um braço do boneco. Chorei como se tivesse perdido a minha alma. Depois coloquei um braço de arame e fiz um ciborgue. Apesar dos revezes, não é bonita a forma como a vida continua?

Os passos no quarto. Abro os olhos rápido. Tudo está quieto. Dormitei. Foi como nas outras noites: os sonhos e a impressão de ouvir movimento no quarto. Pequenos pés batendo contra a madeira do assoalho. Mas não posso, não posso dormir. Nem cochilar. Ou o Inferno virá aqui sob a forma que escolheu. Falta só uma hora e meia. A diferença entre a vida e a morte. Os ponteiros do relógio de parede parecem hesitar em se mover. “Tente”, eu me digo, “se concentrar em lembrar. Isso espantará o sono.”

No outro dia acordei cansado. Não havia dormido direito. Os sonhos me incomodavam. Quer dizer, sonhar com armas atômicas, guerras contra monstros, tudo bem. Mas o sangue me chocou. Nunca tinha sonhado assim antes. Quando cheguei na cozinha meu primo saiu. Depois do café voltei para o quarto e vi toda a minha coleção de bonecos despedaçada. Sabia que era coisa do meu primo. Mas não sabia o que eu tinha feito pra ele. Cê já teve um coração partido? Felizmente ele não tinha tocado no Falcon, ou eu teria dado um jeito de cagar nos tênis dele. Ah, teria. Passei o dia arrumando os bonecos (foi até divertido, mas isso eu não queria confessar nem pra mim mesmo) e fazendo as pazes com o filhote de cachorro. Uma das tardes gostosas de verão, ideais pra vadiar.

De tarde meu pai me chamou e me deu uma surra. Quando perguntei por quê ele me levou ao galinheiro e mostrou a galinha que havia descascado no ninho, como se quisesse descascar de novo a ninhada. Ela estava sentada em doze cabeças de pintinhos falecidos.

Esta manhã o cachorrinho sumiu.

Só resto eu. O último inimigo. E é tão pouco tempo! Uma hora, não mais. Uma hora acordado. Todos os outros se foram: meu primo foi embora com a família. Os brinquedos que usei como vilões foram despedaçados. A galinha foi punida. O cachorrinho. Sabe deus o que aconteceu com ele. E na janta minha mãe reclamou que estava faltando uma faca na cozinha. Não sei onde ele a escondeu. Seu olhinhos – os horríveis olhos pintados – me seguem cada vez que eu me mexo. Eu entendo que ele precisa não ser visto. E entendo seu propósito. Amanhã vou queimá-lo. Se... conseguir... manter... os... olhos... abertos.

terça-feira, julho 24, 2007

Resenha de uma Obra Inconclusa


Foram encontrados na semana passada documentos manuscritos pelo filósofo Albert Lucksenheimer. O professor, que desenvolveu certo renome em suas análises da filosofia moderna, com críticas às vezes incompreensíveis à superficialidade de certos pensadores, provavelmente estava preparando alguns tomos contendo a súmula de sua própria filosofia, que há anos anunciava como a final e definitiva e cujos conceitos, ainda segundo o professor, necessitariam de tal capacidade de abstração que muitos dos chamados filósofos modernos deveriam aprender a gatinhar metafisicamente uma vez mais, para apreendê-los.

Na verdade, os documentos encontrados – e já encaminhados para o museu de Viena para análise mais detalhada – dedicavam-se puramente a reformular a concepção de mundo, com bases discrepantes. O resto da obra, se foi imaginado, jamais será escrito, o que provavelmente representa uma perda monumental para a filosofia moderna – uma vez que, sem o resto da obra, provavelmente não se poderá encontrar o fundamento para a parte que restou preservada nas mil e oitocentas folhas de papel comentadas pelo professor sobre a estrutura do real. Nelas, o professor usava uma sustentação de uma realidade puramente subjetiva, com fundamentos na psicanálise freudiana e possível interpretação do cosmos através de sinais simples, como o fato de a luz incidir por uma fresta incrivelmente pequena de uma janela ou no passeio circular de uma andorinha pelo céu.

Para o professor, o mundo, e mesmo o próprio universo não eram senão um reflexo de seus desejos, de sua vontade, em uma concessão a Schopenhauer até então inédita em sua carreira – considerava-o “por demais obtuso”. Construído por nós mesmos à nossa volta, como uma maneira de nos sentirmos felizes: o mundo como nada mais do que um instrumento de felicidade. Dele, obtemos e criamos o que nos é necessário, mesmo que por vezes nos pareça doloroso ou impiedoso. Assim, o que sofrem imaginaram em torno de si o sofrimento, enquanto os que são felizes imaginaram em torno de si a felicidade; mas há felicidade também no sofrimento; na verdade, as pessoas que dizem sofrer são felizes por lamuriar seu sofrimento (pensamento embasado nos manuscritos por uma extensa análise da obra de Dostoiévsky, com diversas citações de Baudelaire, Augusto dos Anjos e Nietzsche). Arremedando o pensador francês Heraldo Barbuy, autor de Zaratustra Morreu: a infelicidade é tão profunda que, esticando-se ao infinito, que sabidamente é um conceito circular, encontra em seu percurso, na outra ponta (aqui, clara referência ao ponto de partida), a felicidade. Portanto o professor cria piamente que o mundo, com seus jugos e obrigações, é estritamente autoimposto, e que uma pessoa com a mente sadia e coragem suficiente saberia com certeza livrar-se destes jugos. E aqui sustenta-se a posição mais controversa do professor, que o levou ao claustro número 25 do hospício São Pedro, em Porto Alegre, cidade onde residia desde 1989 e onde viria a morrer, seis anos depois, acometido por uma forte pneumonia.

Ao desestruturar o real como o percebemos, pressupondo que o mundo não é senão uma criação subjetiva, sem nenhum fundamento, admite-se que é possível modificá-lo completamente a partir de uma tomada de posição diferente em relação ao próprio mundo. Esta seria a explicação plausível para as viradas da sorte, ganhos e perdas de fortunas, às vezes, que modificam completamente uma vida, demostradas em exaustivo capítulo descrevendo os resultados da roleta de uma famosa casa de jogos em Las Vegas, comentadas e inventariadas pelo professor durante o espaço de um mês. Seriam subterfúgios, métodos criados pela psiquê para adequar a realidade ao novo posicionamento em relação ao mundo e à vida. Tais sinais poderiam ser interpretados, segundo o professor, através da psicologia freudiana, de quem ele era incondicional admirador. Por exemplo, uma rachadura em uma parede ou uma obra de arte internacionalmente cultuada devorada pelo bolor ou pelo tempo poderia ter uma relação direta, de causa e conseqüência, com o sucesso que um determinado quadro ou escola de arte recentes causassem no mercado internacional; assim como o trauma de infância, soterrado, bloqueado na mente de um comandante de esquadra poderia causar a rachadura no casco do navio, que terminaria por destruí-lo, bem como a todos os passageiros. A água é fluida e abundante no planeta porque os homens têm saudades da fluidez do ventre materno; o pênis se divide em milhares de objetos materiais, como carros, dinheiro, esculturas, postes – uma clara menção à reificação frankfurtiana –, até mesmo um charuto; um prédio que é demolido no centro de uma metrópole simboliza o medo de castração de um mendigo do Indostão. Para cada evento há um sinal claro; por exemplo, se um homem com síndrome de inferioridade é descoberto no mundo oriental, é muito provável que vá acontecer um ato terrorista no ocidente. Se um ocidental é impotente, provavelmente um país oriental será bombardeado.

A existência do outro, neste complicado processo, se explicaria logicamente através de apenas duas maneiras, como o leitor facilmente pode perceber: uma, se não existissem outras pessoas, sendo a realidade do Outro apenas dissimulações de diferentes facetas, desejos reprimidos ou personalidades discrepantes do Eu, o sujeito criador do mundo; outra, se existissem Outros, e o mundo formado por cada um deles fosse um amálgama de todos, onde estes vivessem, sendo constantemente alterado por suas reações, ações, pensamentos, sendo nada mais que um reflexo de seus traumas e complexos. Esta segunda hipótese foi a adotada pelo professor, com a pequena ressalva de que todos os Eu coexistiam no mesmo mundo, mas que o alteravam individualmente, e guardavam dele diferentes recordações. Assim o passado individual e os fatos lidos em livros de história não seriam mais que uma criação inconsciente do Eu, bem como todos os romances e histórias ouvidos. Tal teoria surpreende pela força de seus argumentos, bem como pela crença na predestinação, embora não nos moldes clássicos: um psicanalista poderia, por exemplo, prever o futuro de um paciente pela análise de sua psiquê, de seus traumas, bem como qualquer desastre natural ou psicológico que viria a ser sofrido por este paciente, ou que suas neuroses poderiam causar. Com um exame da simbologia dos números para cada paciente, poderia, por exemplo, prever o dia de sua morte, ou o do nascimento de seu primeiro filho. Bastaria analisar com cuidado para entender não apenas a mente do Outro, mas também o universo que o rodeava. Talvez, com o desenvolvimento desta ciência, ensinando-o a modificar o mundo a seu bel-prazer, em vez de ensiná-lo a sujeitar-se ao mundo existente e a conviver com seus traumas. Uma libertação maior do que já sonharam todos os filósofos, portanto, moldando tudo a seu bel-prazer, com o treino.

Assim, o precedente maior para estar completamente livre das meadas psíquicas restritoras seria exatamente desligar-se do mundo ao redor, não se importando com as suas regras de conduta ou mesmo as físicas, processo que fatalmente acabaria em alterar não apenas a percepção sensível do mundo, mas também tudo o que aparenta ser a sua materialidade. Aplicando à risca sua teoria e tentando alcançar a perfeição de sua concepção de mundo, o professor foi encarcerado, ao ser encontrado nu em seu apartamento, devorando uma enciclopédia – o que, segundo ele, com o treino, o capacitaria a apreender todo o conhecimento contido nas páginas pelo simples fato de devorá-las, além de resolver considerável problema que assola a humanidade, como a extrema carência de alimentos e a impossibilidade de digerir a celulose.

Desnecessário dizer da incompreensão dos ditos cientistas e analistas, que o consideraram completamente louco, e o recolheram ao hospício onde viria a falecer seis anos depois, nu e tomado por forte pneumonia, em uma noite invernal, após ter se entupido com jornais velhos extraviados do almoxarifado - na época, insistia novamente em andar nu, pois há muito já havia inventado para si um mundo onde as roupas, e tantas outras convenções, não passam de vaidades e complexos.

sábado, julho 21, 2007

O Livro

Quando a marcha dos Cristãos varreu o mundo, subjugando todas as culturas e demonizando seus deuses e rituais, atribuindo a demônios as manifestações divinas e relegando os escritos sagrados dessas culturas ao fogo – quando escritos sagrados houvesse – o Livro foi criado. Segundo os cristãos, pela mão do próprio Samael; segundo as opiniões dos poucos historiadores que dele tiveram notícia, pelos monges encarregados de relatar os sucessos ou eventuais fracassos das missões empenhadas em salvar as almas incultas.

Em 1819 ou 20, veio ao mundo a primeira notícia do Livro, encontrada por um obscuro historiador de nome Herbert Pratchett nos arquivos do Vaticano. Pratchett era um monge e um asceta, e foi o mero acaso que o levou a descobrir o pergaminho contendo uma breve referência aos escritos. Tratava-se de uma condenação de um monge trapista, de nome Domenico, urgindo que o original fosse destruído, pois sua própria presença na biblioteca representava uma mácula para os cristãos. O motivo desse pedido não vinha apenas do conteúdo sacrílego dos escritos, mas principalmente do modo pelo qual os segredos haviam sido obtidos. Havia referências à tortura dos sacerdotes desses cultos, alguns mais antigos que a escrita, incluindo a evisceração e esfolamento. O monge parecia crer que algumas das páginas haviam sido escritas sobre as peles esfoladas dos adoradores renitentes. Nelas, havia um inventário dos ritos e crenças, os nomes dos deuses e como os infiéis faziam para obter as graças de seus deuses misteriosos e inumanos. Acreditando ter nas mãos o fio de uma investigação que levava a um tesouro antropológico sem precedentes, Pratchett abandonou sua pesquisa sobre as heresias que vinha realizando e tentou se dedicar à busca do Livro.

Quando a notícia de sua inusitada busca – tão diferente do pretexto utilizado para ter acesso aos inumeráveis arquivos proibidos da Biblioteca do Vaticano – chegou aos cardeais encarregados, Pratchett foi impedido de continuar suas pesquisas. Isso não o impediu de escrever a respeito, mas, que se saiba, nenhum de seus escritos sobreviveu a ele, sendo todos consumidos em um incêndio suspeito no monastério em que vivia.

Anos depois, um fragmento de manuscrito condenando o livro chegou às mãos de um bibliófilo, aparentemente “subtraído” da Biblioteca do Vaticano. Faz menção a rituais bárbaros e a uma língua sagrada de alguma cultura. Também comenta que o livro é inteiramente encartado em pele, e há alguns indícios de que a pele foi torturada, como queimaduras, etc., incluindo várias páginas tatuadas com símbolos, geométricos e estranhos. Tratava-se de parte de um inventário da Biblioteca, e o responsável aparentemente não sabia ou não se importava com o que estava lidando, fazendo apenas uma descrição desapaixonada. Junto, haviam vários livros proscritos (incluindo A Comédia, de Aristóteles, que nunca chegou a nosso tempo), a maioria comuns. Provavelmente, uma seção restrita da biblioteca. Afinal, conhecer é poder.

Durante o papado de Bórgia, três cópias foram feitas. Aparentemente, para os filhos do papa. Poderiam ter tirado do livro os venenos. Talvez até a Praga. O rastro dessas cópias desaparece nessa época, embora haja algumas inferências de seus paradeiros, principalmente através de “caças às bruxas” e eventos estranhos. Ocorridos esporadicamente.

Suspeita-se que uma cópia tenha sido adquirida por elementos que formavam a elite das SS, incluindo Hitler em pessoa, e utilizada para garantir o poder. Hitler, apreciando a idéia de um original encartado em pele humana, teria determinado a criação de uma nova cópia, para uso pessoal, com as peles dos judeus alemães mortos nas câmaras de gás, tatuadas ou com tinta de ouro (não se sabe qual das opções é verdadeira, uma vez que o livro se perdeu quando, derrotados, os nazistas recorreram à Odessa e sumiram no mundo, disfarçados).

Se as cópias foram parar em mãos de colecionadores de livros, é crível que não foram feitas mais edições. Quanto mais raros, mais os livros valem. Claro que um bibliófilo poderia pensar diferente sobre disseminação de cultura, então, nada é certo.

Alguns estudiosos menos responsáveis acreditam que Lovecraft teria se inspirado na lenda do Livro para criar seu Necronomicon, mas, embora fosse um literato e um estudioso do oculto, nada indica que Lovecraft tenha tido acesso aos dados de que necessitaria para suspeitar de sua existência. Mas poderia ter sido contatado por um conhecedor, uma vez que seus escritos eram muito lidos.

Pelo menos três bibliotecas alegaram possuir o Livro desde os anos 50, mas, quando a questão foi averiguada, descobriu-se que eram cópias baratas, compilações de feitiços e superstições modernas. Talvez o Livro original também não fosse mais do que isso, mas ao menos os ritos e crenças inventariados eram antigos e reais. Uma das alegadas cópias era uma versão modificada de Capa de Aço, supostamente de São Cipriano. Não se sabe se as bibliotecas foram iludidas por vendedores inescrupulosos ou se o eram os próprios curadores, de modo que não cabe citar nomes. O assunto é obscuro o suficiente, de resto, para não despertar atenção a não ser nos meios especializados – e comerciantes sérios de grimoires e livros místicos raros formam um grupo especializado raro o suficiente para passar praticamente despercebido.

sexta-feira, julho 20, 2007

Uma Manhã

Minha irmã era um ano e pouco mais nova que eu e me seguia para todo lado, todas as horas. Pare com esse olhar meigo e preste atenção: eu disse todas as horas. Isso às vezes era bom, brincávamos bastante. Mas também me impedia de praticar todas as vilezas e aberrações de que somente um menino de sete anos é capaz. Por exemplo: besouros. Se eu encontrava um besouro no quintal e começava a atazanar ele, depois pegava, a criatura assumia naturalmente que eu ia colocá-lo em seu cabelo e saía correndo para casa. Depois voltava seguindo a babá, que me repreendia por estar pegando aquelas nojeiras.

O Bolota era o meu cachorro, meu confidente e meu amigo. Ganhou o nome por ter uma mancha redonda no dorso, mas logo começou a merecer o nome também por seu físico. Nossa intimidade não impedia que às vezes houvesse rusgas entre nós. Mas, se eu puxava as suas orelhas, lá ia a minha irmã:

- Manhêêê!! O mano tá maltratando o Bolota!

Nova visita da superintendência, nova bronca. Bom, mesmo com sete anos eu sabia – e até ficava lisonjeado – que ela gostava de minha companhia. Mas eu precisava de algum tempo sozinho, e desenvolvi diversos artifícios para isso. Um deles era me esconder em um canto. Durava às vezes meia hora. Outro deles era sugerir uma brincadeira qualquer, entretê-la por alguns minutos e cair fora, de fininho.

Mas um dia surgiu em minha mente um esquema maquiavélico, perfeito: eu iria mandar ela me procurar. Tá, não é original. Eu havia lido em um gibi a frase “vai ver se estou na esquina” e achei uma alternativa viável.

Assim, quando ela chegou perto de mim, eu disse:

- Vai ver se eu estou do outro lado da casa (não podíamos atravessar as ruas e a esquina estava à vista).

- Tu não tá, não. Tu tá aqui.

Merda. Talvez um pouco de convencimento se fizesse necessário.

- Não tou não, eu garanto que estou do outro lado da casa. Vai lá e vê.

Lá foi ela.

Então veio um outro esquema demoníaco: e se eu estivesse do outro lado da casa? Foi pensamento e ação. Corri para o outro lado da casa, cheguei antes dela, e fiquei fuçando o chão. Ela chegou. Eu cumprimentei.

- Oi.

- Oi.

- O que ce tá fazendo aqui? Tá frio na sombra. Vai pro sol.

- Tu me disse pra te encontrar aqui.

- Eu?

- Sim, ali no outro lado da casa.

- Pois vai e diz pra ele que aqui está muito frio pra ti.

Eu não imagino o que estava se passando na cabeça dela, nem se ela achava normal aquilo – por que não? O fato é que ela foi. E eu também, correndo pelo lado oposto. Mas quando cheguei, quase botei o coração para fora da boca: lá estava ela falando comigo.

Quando me vi chegando fiz sinal para que me aproximasse e falei:

- Fica com ela um pouco, eu quero ficar sozinho.

- Não, ali do outro lado da casa está muito frio pra ela.

- Droga. Então eu vou pra lá e você fica aqui com ela, O.K.?

- Eu quero ficar sozinho também.

- Então vamos fazer o seguinte: par ou ímpar.

Jogamos. Eu perdi. Fiquei do lado do sol com a minha irmã. Fomos brincar na areia. Não antes de eu dar uma olhada no outro lado da casa, com muito cuidado para não me ver.

Eu estava do outro lado, agachado, colocando sal em algumas lesmas. Me olhei nos olhos e sorri. Depois eu não entendi o que aconteceu, mas meu outro eu pareceu sumir, se fundir com as sombras, sempre sorrindo pra mim. Já vi e ouvi muita coisa desde então, mas nada que fosse parecido com isso. A não ser a palavra alemã doppleganger – a contraparte fantasmagórica de um indivíduo vivo. Ouvi que isso acontecia às vezes no momento da morte, em que uma pessoa visita os entes queridos, dá mensagens breves. Mas não foi o caso. Resumindo a ópera: não sei. Não sei mesmo. E, pra mim, assim está bem. Aliás, brincar na areia foi interessante, no fim das contas.

quinta-feira, julho 19, 2007

A Visita

Bateram na porta bem na hora do Mr. Bean. Claro, nada é sagrado hoje em dia. Levantei reclamando do sofá, comentando pra mim mesmo quem seria o palhaço e imaginando como seria engraçado se fosse realmente um palhaço. Quer dizer, a surpresa da coisa. O inusitado. Se é que se pode chamar assim.

Mas era o vizinho da diagonal de baixo (apartamento em frente ao meu, um andar abaixo), Afonso. Muito pálido, cabelo revolto, preocupado. Não era a primeira vez que ele aparecia ali em casa assim. O Afonso era um grande cara, em todos os sentidos: era boa-pinta, tinha mais de cento e dez quilos, um bom bebedor, desses que não fica chato, era doutor em picaretagem filosófica (falava de qualquer assunto). Boa companhia, exceto por dois itens em minha lista: gostava de música e brigava o tempo todo com a mulher, a Maggi (não se pronuncia “méguie”, é “magi” mesmo. Foi apelidada em homenagem ao caldo nobre da galinha azul.)

A parte da música é fácil de adivinhar: volume alto, uma seleção muito própria de discos de Heavy Metal, praticamente o dia inteiro. As brigas com a Maggi são mais difíceis de explicar. Porque, olhando para os dois, você tem a idéia do casal perfeito, entende? Os dois sempre vestidos de preto, com camisetas de banda, fazendo tatuagens parecidas e tentando engordar juntos até uma gloriosa explosão final. Regados a muita cerveja e som a todo volume. Os dois cabeludos. Barba, só ele tinha (acho). Esse tipo de casal, que é tão parecido que fica difícil diferenciar os dois em uma sala escura.

Agora, viviam quebrando o pau. Coisa feia, de descambar pra violência mesmo. Ela era especialista em arremesso de troços que se encontrassem ao redor. Ele ia mais no corpo-a-corpo. Seguido a música era interrompida pelo barulho de alguma coisa quebrando e um grito, ou de objetos pesados batendo nas paredes (os que ela acertava nele, não ouvíamos daqui. Ele era bem mais macio que a parede.)

Então, não era incomum ele aparecer aqui no mesmo estado, olhar meio perdido, pálido pela explosão de adrenalina e com o cabelo revolto, como se tivesse acabado de passar um ciclo econômico na máquina de lavar roupas. Costumávamos conversar um pouco, beber um muito e ele normalmente saía mais calmo, para casa ou para um bar, dependendo da seriedade da coisa. Nunca ficava muito tempo e, normalmente, no outro dia já andavam agarrados pelo elevador ou pela escada, um esfregando os roxos do corpo do outro como se fossem estigmas de amor.

Naquele dia ele estava mais preocupado do que furioso. Eu cumprimentei, convidei-o pra sentar e ele ficou lá, de cabeça baixa e olhar perdido. Já estava até esperando a visita, porque eu e minha senhôura tínhamos ouvido um quebra-quebra há pouco e ela havia olhado pra mim com um jeito sacana e dito que o “meu amigo deveria estar subindo as escadas”. Fazia um tempinho que isso não acontecia, uns meses, já.
Após um tempo regulamentar de silêncio, perguntei o que tinha acontecido, se a briga tinha sido muito séria. Ele só concordou com a cabeça. “Ih”, pensei cá comigo, “isso vai ser demorado. Melhor eu encher a cara dele.” E servi um uísque pra ele e um uísque com água pra mim. Eu não gosto, mas acho bom acompanhar. Ele tomou tudo de um trago e eu, que estava meio dobrado pra sentar na poltrona, tive que levantar pra pegar outro.

A conversa foi diferente: eu perguntava as coisas e ele só ficava ali, paradão, olhando para as paredes e suspirando. Então tinha um arranco, como se fosse dizer alguma coisa, depois desistia e continuava quieto. Passou um tempão assim, até a minha esposa chegou e perguntou (pra mim) o que estava acontecendo. Só dei de ombros, não sabia de nada. De repente ele levantou a cabeça, rápido, como se tivesse ouvido alguma coisa, e foi correndo para o banheiro. Bem a tempo, aliás, porque a campainha tocou nesse instante. Era a Maggi. Estava tão pálida e desgrenhada quanto ele, com aquele olhar tão óbvio de quem tá puta da cara que não vale a pena perguntar nem tentar discutir nada. Cê sabe como é.

- Cadê o Afonso.

- No banheiro. Correu que nem um coelho quando te ouviu chegando – sorri. (Sim, eu sei. Sou mesmo.)

Ela levantou a voz, tipo, pro prédio inteiro ouvir...

- Pois FALA pra esse BÊBADO que quando ele sair do banheiro volte pra CASA. Que é o LUGAR dele, não se ESCONDENDO no vizinho.

Pisquei o olho pra ela. Ela largou um sorriso daqueles, cruéis. Tipo “nós, eu e você, nos entendemos e eu sei que você é filho da puta”. Tentei devolver o olhar, mas sou uma bolha pra fazer cara de mau. Ela me ganha fácil, fácil.

Aí ela saiu pelo corredor. Fechei a porta.

- Afonso, ela já foi.

Nada. Só faltava o gordo ter morrido de medo no meu banheiro. Eu ia levar um ano pra desentalar ele lá de dentro. Bati na porta.

- Ela já foi.

- A Maggi?

- Não, a Luíza Brunet. Te procurou, disse que de repente tinha dado uma vontade louca de dar pra você, mas, como ce tava ocupado, ela procurava outro. E foi embora.

- Você VIU a Maggi?

- Difícil não ver. Acho que ela pesa mais que você.

Ele olhou pra mim, e eu gelei: nunca tinha visto tal pavor, pavor mesmo, nos olhos de uma pessoa.

- Cara, a Maggi tá morta há quatro dias. Eu matei ela sem querer. Ela começou a quebrar meus discos e eu perdi o controle e acertei ela com o martelo de bife. Mas ela voltou, e eu não agüento mais. Por favor, vai lá dizer pra ela parar de me perseguir...

E foi isso. Tentei acalmar o Afonso um pouco, depois liguei para a polícia. Eu não estava acreditando muito naquela história – um martelo de madeira, esses de bater bife não ia nem arranhar a superfície da Maggi. Mas a polícia confirmou que encontrou o cadáver. Tava no chuveiro deles, fedendo, já. O Afonso foi recolhido para uma delegacia, e de lá direto para o Pinel, porque não estava em condições de muito mais que gritar ou enfiar colheradas de papa na orelha.

Eu? Eu não sei nem por que é que a luzinha acende quando a gente abre a porta da geladeira. Não faço idéia do que aconteceu. Mas lembro da última visita da Maggi, e do seu sorriso, e parece que lembro também de alguma coisa estranha, não-humana quando vi ela andando no corredor em minha direção. A luz estava ligada? Ah, não sei. E prefiro continuar não sabendo disso para o resto de minha vida.

terça-feira, julho 17, 2007

Considerações

Neste momento você deve estar olhando para a tela e pensando “Tá, considerações. Sobre o quê?” E eu respondo: sobre horror, ué. Foi uma coisa que apareceu no blog meio que por acidente, simplesmente deixei os dedos rolarem no teclado e saiu um contículo de horror sobre um gato na sacada (é, isso aí. Também achei estranho.) Depois saiu outro, e mais outro. E eu pensei aqui comigo: “por que o horror nos atrai tanto?”


Eu não sei como aconteceu com você – e nem se acontece. Comigo, a coisa começou com os filmes (péssimos) de horror da década de 70-80. Stephen King foi um autor que começou a pipocar seguido em minha mente antes mesmo que eu lesse Machado de Assis ou Érico Veríssimo. Impulsionado pelo pavor e a adrenalina dos filmes (Re-Animator, Evil Dead, Christine, Cemitério Maldito, etc...), comecei a procurar os livros. Eu andava numa de clássicos. Então, o primeiro autor com que entrei em contato foi o bom e velho E.A.Poe, que também já tinha visto em algumas adaptações para o cinema. Os contos dele me gelavam a espinha.



Depois de Poe eu não conseguia ler um Stephen King com o mesmo gosto. Sei lá, uma questão de estilo. O Poe me horrorizava. King fazia o terror parecer um passeio na Casa Assombrada de um parque de diversões. As aventuras eram mais ou menos as mesmas. Homem encontra mistério fantasmagórico de um tipo qualquer, mistério fantasmagórico de um tipo qualquer mata um monte de gente, homem mata mistério fantasmagórico de um tipo qualquer. Poe tinha uma qualidade mais intensa em seus escritos.



Depois descobri H.P. Lovecraft. Foi um achado! O cara realmente sabia criar um clima. E foi lendo Lovecraft – em particular um ensaio dele sobre o Horror e a literatura fantástica – que descobri que há uma diferença entre o TError e o HOrror. Que é o fato de o escritor de horror estar preocupado em criar um clima tétrico para a história. Essa preocupação faz a diferença. Tendo lido o ensaio – em que o autor se preocupa em indicar também os autores mais bem sucedidos de horror em todas as épocas – encontrei muito mais coisas boas para ler.



Fui apresentado a Maupassant, Defoe, Bierce; até Heinlein tem um conto magnífico de horror. E, nesse meio tempo, cheguei à conclusão de que o que nos leva a buscar esse tipo de literatura (ME leva. Como eu disse, não sei você, se gosta) é uma vontade de temer, de se assustar. Talvez algo que a gente traga nas costas desde antes de descer das árvores, em que uma descarga de adrenalina poderia te salvar do predador. Penso que a literatura de horror/terror tem essa finalidade, de suprir nossos organismos com um temor irracional para que nosso organismo está preparado, foi feito para isso. Mas a segurança e – às vezes – monotonia da vida moderna não supre. Em minha opinião, o HOrror é mais efetivo que o TError. A maioria dos últimos livros me chateia (King, Anne Rice, etc.). Mas os antigos ainda conseguem me prover com aquele frio gostoso na espinha.
Claro, o que eu escrevo não tem essa preocupação em criar o “clima”. Mas acho que alguns são efetivos (especialmente se você os lê de noite... hehehe). Depois de tantas considerações e dicas, acho que o mínimo que posso fazer por você é postar alguns links para histórias de terror/horror. Tirei estes do PDL (link aí do lado). Não sei se você vai conseguir acessar sem se cadastrar, mas asseguro que o processo é indolor e o resultado vale a pena! Se quiser mais, tem um monte. E bons suores frios!!!



Livros de:









O Homúnculo

A idéia veio num sonho:

Uma vida por uma vida
Um óvulo para matéria,
A semente para a forma,
Ferva em sangue por dois dias,
No terceiro, o que ali estiver será seu escravo.
Alimente-o com seu sangue, e fará tudo o que desejares.


Simples, assim. Quase uma receita de pão. Claro que o sonho me impressionou, senão nem mencionava ele aqui: só faltaram as três bruxas jogando nojeiras em um caldeirão e rindo para mim.


Resolvi fazer. Sei lá. Tenho um pé na cozinha. Adoro receitas novas. E, depois, tinha parado de fumar e começava a engordar que nem um porco, precisava de alguma coisa para me distrair ou não conseguiria manter minhas mãos desocupadas longe da geladeira por muito tempo. E eu sei que quem escreveu que “a mente desocupada é o jardim do Diabo” não ponderou sobre os efeitos maléficos de uma dieta forçada.


Então, segui a receita. Uma vida por uma vida. Resolvi isso com uma lagartixa preguiçosa. Um ovo de galinha cuidou da parte da matéria. A minha semente... bom, consegui do jeito normal – foi até gostoso. Já o sangue... pensei em comprar num açougue, mas decidi que, se não pudesse ser feito com caldo de carne, não valeria o esforço. Não queria o açougueiro me olhando estranho.


No primeiro dia a lagartixa dissolveu inteira. Eu não sabia que ossos dissolviam. Aquilo seguiu fervendo, enquanto eu acrescentava mais e mais caldo de carne, até que a condensação deixasse uma crosta do lado de dentro da panela. Uma sujeirada. O cheiro era gostoso, mas – eu, hein? – nem pensei em provar. O ovo, que deveria ter rebentado nos primeiros quinze minutos, estava lá, incólume, olhando pra mim. De resto, estava parecido com uma sopa daquelas que se come em restaurantes caros.


Foram duas noites levantando de duas em duas horas pra ver a mistura e colocar mais caldo de carne (desses de caixinha, nada muito caro). No terceiro dia o ovo rebentou, e aquilo saiu de dentro.


Parecia um feto humano, mas era muito menor, do tamanho de uma barata, completamente vermelho e me olhava com os olhinhos verdes. Guardei num vidro. Naquela noite, antes de dormir, cortei meu dedo e dei de mamar meu sangue para a coisa. Bebeu uns golinhos, arrotou, satisfeito, depois olhou para mim e falou:


- O que você quer?


E essa, agora? Não tinha pensado nisso! As coisas mais loucas rolaram na minha mente, desde “dá um abraço no papai”, até “uma cervejinha e não se fala mais nisso”. Só que havia algo de desconfortável na maneira da coisa me olhar, então eu pedi simplesmente:


- Me conta uma história.


E ele me contou sobre uma civilização antiga, os guardiões secretos da História, ainda vivos, registrando fatos passados em cavernas, escondidos dos olhos do Homem. Foi legal. Sonhei com aquilo depois.


Essa mesma cena começou a acontecer todos os dias. Através da coisa do vidro eu fiquei sabendo por que os gatos gritam que nem crianças na noite, fiquei sabendo da existência do Livro, que não tinha nome e que era um compêndio dos ritos das religiões antigas, conseguido através da tortura de seus sacerdotes e enterrado por séculos em algum lugar do Vaticano – até ser roubado -, fiquei sabendo do destino verdadeiro da linhagem de Caim, do paradeiro da lança de Longinus (enterrada junto do cadáver de Hitler, história comprida, você não vai querer saber) e do código secreto para ler os poucos grimoires verdadeiros que – pasmem! – poderiam ser adquiridos pela Internet por uma módica quantia.


Nesse meio tempo a coisa do vidro cresceu, ficou parecido com um homenzinho de pele vermelha e olhos verdes, só que com quinze centímetros de altura. Não precisava de água nem de comida (pelo menos rejeitou mais de uma vez umas bolachinhas recheadas que ofereci), se alimentava exclusivamente de meu sangue e pegou a me chamar de “mestre”. Sendo que eu ainda não tinha mestrado em porcaria nenhuma. E também começou a se exasperar com meus pedidos; insistia em me oferecer ouro, favores, palácios, queria pedidos maiores. E, quando eu novamente pedia uma história, apenas virava a cabeça, evitando meu olhar e comentava:


- O Mestre é sábio.


A razão dessa “sabedoria” eu não sei. Vai ver é algo socrático, “só sei que nada sei, e isso me faz sábio perto dos outros, que não sabem nada e acham que sabem algo”. A lógica disso tudo me escapa. Eu só gostava das histórias. Cheguei a escrever algumas, para não me esquecer. Porque a danada da coisa se negava a repetir uma história que já me tivesse contado.


A minha dieta também deu certo; nas primeiras duas semanas perdi três quilos. Na outra o cinto foi apertado um buraco. E eu estava feliz com a minha nova mascote. Cheguei até a pensar em comprar uma gaiola e ensinar alguns palavrões pro negócio. Claro que não falei a ninguém sobre ele, e escondia a garrafa em cima do guarda-roupas, tirando a coisa dali só para alimentá-lo e ouvir as suas histórias. Eu mencionei que era um “ele”?


O problema é que o meu dedo estava ficando ruim. Não parava de doer, o corte estava sempre aberto. E as minhas roupas estavam ficando mais folgadas do que a perda de peso indicava que deveriam ficar. Uma noite fingi dormir e vi o coisinha se arrastando de sua garrafa, descendo do guarda-roupas (que nem uma aranhona vermelha, coisa feia de se ver) e procurando o meu dedo. Não me mexi. À medida em que ele bebia umas veias inchadas, como enormes sanguessugas vermelhas se formavam por todo o corpo. Ele pareceu crescer dois centímetros aquela noite e, pela manhã, as barras de minhas calças precisavam e um novo ajuste. O terceiro.
Na noite seguinte peguei sua garrafa como de costume – já quase não cabia mais nela – e olhei para ele com atenção. Pela primeira vez notei sua incômoda semelhança comigo. Ele não era assim dias antes. Dei-lhe meu sangue e, na hora que ele me perguntou o que eu queria, respondi simplesmente:


- Vá para o inferno, filhinho.


Ele deu um grito de ódio enquanto desaparecia. Suas feições ficaram muito, muito diferentes e pude ver pela primeira e última vez a verdadeira aparência da coisa que pretendia tomar o meu lugar. E não era bonito. Pra dizer o mínimo.

segunda-feira, julho 16, 2007

A Armadilha


A madrugada andava alta, prometendo um novo dia, a boate já havia acabado e a rua estava mais fria e deserta do que eu lembrava já ter visto. Eu estava pensando com meus botões – depois que usaram pela primeira vez essa expressão, todo botão virou filósofo – que os caras feios deveriam ter algo, uma espécie de direito de nascença a algumas coisas da vida que normalmente estão ao alcance só dos bonitões. Quer dizer, se você é bonito, é fácil. Tem as meninas mais bonitas da escola caindo por você, conhece gente, as pessoas andam tão encantadas com você que não é necessária timidez, o futuro sogro te oferece um empregão, nem bem cê entra na faculdade, essas coisas.

O feio não, o feio é reduzido desde cedo a essa abjeção moral, molusco humano, essa criatura sem jeito, que desfila sua fealdade pelas ruas como se pedisse desculpas, que nunca realizou suas fantasias eróticas e sublimou tudo em livros estranhos. Já que se é feio, deve-se no mínimo afetar inteligência. O feio também anda desarrumado. E bem vestir para embelezar o quê? Feiúra não tem remédio, só plástica, mas cadê o dinheiro para fazer? Não conseguiu o emprego porque se portou na entrevista como um caramujo, que entra na casca qualquer sinal externo de predação. Feio tem é que se consolar com ser feio, e pronto. Assume as roupas remendadas, os óculos quebrados remendados com um pedaço de esparadrapo e as leituras estranhas como estilo, e viva-se com isso. Por essas e outras eu digo: deveria existir uma espécie de compensação por ser feio. Um emprego, mesmo medíocre, reservado, o direito de, uma vez por ano, se trancar num quarto com a menina mais bonita do colégio e fazer o que quisesse com ela, um adicional no salário pelo aleijão estético, essas coisas. Pensando nisso eu ia, e a noite e o silêncio crescendo tanto à minha volta que só não me oprimiam porque – eu sabia – esse crescimento todo ia explodir, desovar no dia que perigava nascer.

Aí eu vi o Diabo. Cachorrão preto, os olhos vermelhos. Parado na minha frente, na sombra de um beco, me encarando. Num olhar do bicho tudo o que é ruim na minha vida começou a me assaltar. Desde o momento em que quebrei um lápis na cabeça de um colega até os dias atuais. Engoli em seco com uma vontade tamanha que nem sei como fiquei com os dentes de trás. Aí o bicho sorriu. Ce já viu cachorro rindo? Pois é. Nem eu. Mas aquele não era um cachorro, era o Diabo, e sorria para mim. Aquele sorriso zombeteiro, meio cúmplice, que diz “eu conheço você” em cada dente à mostra. Eu puxei um cigarro, acendi e disse:

- Tá bom. Cê me conhece. E daí?

Ele colocou a cabeça de lado, uma orelha erguida.

- Eu também me conheço. Não tem nada de especial nisso. Ah. Tá. Entendi. Esse é um dos lances de me assustar para me deixar desesperado, né?

Silêncio.

- Não? Então deve ser pra me fazer recordar que mau menino eu fui, e chegar à conclusão de que não importa o que eu faça, vou parar no inferno. É isso?

O bicho botou a língua pra fora e começou a resfolegar.

- Ah. O.K. Bom, não deu muito certo, né? Quer dizer, não trouxe nada novo. Eu não entendo essa disputa que cê tem com o Cara de Cima. Nem vejo muito lucro em tentar angariar almas. Sabe por quê? Por que, não importa o que cê faça, ele tem o jogo todo na mão dele.

Rosnado. Bom.

- Onipotente e onisciente, né? Sabe o que vai ser antes de ser, e pode mudar o que quiser. Ce não fica chateado em ser apenas mais uma peça no jogo de xadrez cósmico? Mas é uma realidade inescapável, não?

Dois passos em minha direção.

- Fala sério. Cê deve se achar um verdadeiro otário quando descansa a cabeça no travesseiro, ou estalagmite, o que for. Toda essa rebeldia, essa guerra e no final, acontece o quê? Ce não tem chance desde o começo da história! No final das contas cê vai voltar pro papai com o rabinho abanando, né?

Postura de ataque. Começou a caminhar devagarinho para mim, sempre rosnando.

- Sabe o que a gente diz por aqui? “O filho pródigo à casa torna.” Quer dizer que o cara que sai mais cedo de casa acaba voltando, porque não sabe o suficiente para não se dar mal. Se bem que no seu caso podia ser “o filho pródigo o caldo entorna”, porque...

Ele pulou. No mesmo instante, o sol nascendo tocou o corpo preto e o Diabo, com um grito de ódio, se esfumaçou no meio do salto, a centímetros do meu pescoço. Deu tempo. Pelo menos, deu tempo. Fui pra casa feliz da vida, assobiando como se tivesse visto passarinho verde. Não é sempre que o Diabo cai na sua que nem um patinho.

terça-feira, julho 10, 2007

O Relato do Antigo Marinheiro - Parte III



Foi com crescente desconforto que ouvi os comentários sobre um certo padrão na irregularidade do solo oceânico abaixo. Se, por um lado todos estavam convencidos de que o haitiano estava correto e que algas fosforescentes eram as responsáveis pela luz que vinha de baixo, alguns de nós haviam notado simetrias no fundo oceânico. Um marinheiro recuou horrorizado com a convicção de que havíamos encontrado as ruínas assombradas do continente perdido de Mu. Foi desdenhado pelos outros, então retornou de mau humor a sua rede. Embora o fenômeno fosse realmente muito curioso, a maioria dos homens retornou a seus dormitórios em pouco tempo, apenas os dois vigias e eu ficamos no convés. Conversamos um pouco, fumando e prestando pouca atenção à luz sobrenatural do fundo do oceano, embora o cheiro que nos punha nervosos nos levasse às vezes a suspeitar um movimento nas formas vagas abaixo de nós, ou uma mudança no teor da luminosidade, que atingiu o seu ápice pouco antes do horizonte começar a clarear anunciando a aurora. Parecia uma luz apodrecida, doentia, amarelo-esverdeada. Às três e meia uma leve brisa começou a soprar, e a névoa desapareceu totalmente em coisa de dez minutos. Fomos chamar o capitão, esperando sair daquela região estranha do mar o quanto antes. Mas, quando chegamos a sua cabine, ele já estava desperto, pois um movimento forte podia ser percebido nas águas agora. Houve um grito no convés.
Quase toda a tripulação estava desperta. Corremos para fora, e encontramos um dos vigias encostado no mastro principal, gritando como se todos os demônios de inferno estivessem atrás dele. “É o diabo!”, gritava ele, enquanto tentávamos acalmá-lo e preparávamos as velas. Então olhei para o mar e vi o que ele havia visto.
Era um polvo e uma lula gigante. Era um peixe-diabo e um peixe-morcego. Era espectralmente branco... e era também humano em sua estrutura facial, com uma expressão de horror que me gelou os ossos e me jogou no sangue uma carga de adrenalina tão grande que tive que me segurar no corrimão com ambas as mãos para não sair dali correndo e gritando como um doido. E por maior que fosse o pandemônio de peixes indescritíveis à sua volta, com seus formatos bizzarros e pré-históricos, eles não o estavam devorando. Apenas passando, subindo das profundezas e se dispersando na superfície, as únicas ondas em um mar calmo como dez gerações de pescadores não viram.
Mais do que isso, era também a fonte da horrorosa luminosidade esverdeada que percebêramos durante a noite. Estivéramos navegando sobre seu corpo morto, um corpo cujas dimensões poderiam apenas ser pressentidas. Poderia ter engolido o barco inteiro se estivesse vivo. A humanidade nunca teve a chance de encontrar, viva ou morta, uma lula gigante. A única coisa que levou os cientistas a inferirem a existência de tal animal foram grandes marcas de sucção em corpos de baleias mortas. Talvez estivéssemos presenciando um passo adiante no desconhecido, um predador de lulas gigantes ou coisa que o valha. Parece uma racionalização simplória, mas foi o pensamento que me impediu de enlouquecer definitivamente. Mesmo assim, eu duvido de sua veracidade. Talvez o ajudante do cozinheiro estivesse certo, no fim das contas. Mas o que me fez perder a razão e passar os seis meses na casa para doentes mentais, e o que levou o capitão a afundar o Esperança pelas próprias mãos próximo ao Farol de Santa Marta, em Santa Catarina, no Brasil, foi outra coisa. Foi a monstruosidade que alcançou o cadáver sob nosso barco e o arrastou para as profundezas, devorando-o.
Suas dimensões deveriam ser... não, não posso continuar. Pelo bem da pouca sanidade que me resta, preciso encerrar este relato aqui.

O Relato do Antigo Marinheiro - Parte II


Uma hora antes do dia raiar fomos despertados por fortes ruídos de água e batidas contra o casco de estibordo, além de uma súbita intensificação no cheiro que nos deixava nervosos e assustadiços. Subimos até o convés, onde um vigia senegalês, pálido e tremendo como uma vara verde, nos esperava com a nova:
- Há mais deles – disse o homem, olhando em nossos olhos com intensidade – e o estão comendo.
Quando olhamos pela borda, o espetáculo dantesco nos tirou o fôlego: dezenas de criaturas semelhantes à que havíamos trazido a bordo no dia anterior estavam próximas do casco, devorando o companheiro morto. As mandíbulas projetavam-se da cabeça, tornando-os parecidos com vermes gigantescos cobertos de dentes, e, quando se fechavam, arrastavam tudo na área de suas mordidas. Se moviam com uma velocidade espantosa, e o sangue fedorento do horror em decomposição na água levou-os a um frenesi de destruição e canibalismo. Arrancavam lascas do casco em seus ataques cegos, e o cheiro peculiar de seu sangue, agora onipresente, era insuportável. Mas o que nos fez recuar não foi o cheiro nem a visão daquele banquete obsceno, nem foi o receio de que eles viessem a perfurar o casco – pois este era grosso e resistente. Foram os gritos.
Aquilo era tão distinto de nossas experiências anteriores que saímos lentamente da borda, recuando, como se tivéssemos receio de das as costas aos horrores que se devoravam uns aos outros na água, negra de sangue atípico. Peixes não gritam. Não possuem gargantas para isso, não têm cordas vocais preparadas para emitir sons a céu aberto. Mesmo assim os ouvíamos. Alguns pareciam urros, outros esgares. Alguns até pareciam provir de uma garganta humana, e isso era quando um deles se feria na selvagem luta que travavam. Aquilo durou uma eternidade. Um garoto que costumava auxiliar o cozinheiro perdeu os sentidos perto da amurada, e teve de ser segurado pela blusa rota para não cair na água, em direção à garganta dos horrores. Alguns correram na direção dos arpões, outros de seus rosários. A maioria de nós, entretanto, pôde apenas se quedar de boca aberta, como testemunha do fenômeno. Pelo meio da manhã as águas se aquietaram, e a última das criaturas voltou à escuridão, deixando nas águas o miasma de sua presença. O cheiro era tão forte que quase ninguém comeu sua ração de bolachas e carne. O sumo de limão, ração obrigatória, parecia ter apodrecido, deixando sua presença ácida em nossos estômagos.

Às duas da tarde nosso capitão enlouqueceu. Saiu ao convés gritando que tudo aquilo era obra do demônio e que era melhor que esquecêssemos qualquer esperança. Num desvario, pôs-se a cortar os cordames que prendiam as velas. Parecia julgar ser inútil esperar qualquer vento ou maré para nos tirar daquela situação. Foram necessários dois homens para contê-lo, e o médico de bordo administrou-lhe um calmante forte, que o prostrou na cama. Depois de oito horas de sono ele voltou ao convés, envergonhado, e pediu desculpas à tripulação, prometendo-nos tirar daquele aperto, fosse como fosse. Como se em retribuição às suas palavras de encorajamento constrangido, sentimos um movimento tênue, mas perceptível, nas ondas. Parecia que uma corrente marítima enfim nos levaria para algum lugar. Ninguém argumentou a impossibilidade disso (mas todos sabíamos que correntes marítimas não nascem do nada), preferindo sorrir com nervosismo, aliviados com alguma movimentação depois dos doze dias infernais no centro da calmaria, mas a esperança era em vão. O movimento, embora perceptível, não carregou o barco mais que uma dúzia de metros, e não havia vento nenhum a impelir o barco. O capitão deixou cair os braços ao longo do corpo, derrotado, e voltou para a sua cabine. Era o começo da noite em que o horror nos atingiu.
Não havia luar, e as estrelas estavam cobertas por uma bruma espectral. Por volta das onze um odor terrível começou a se fazer sentir. Não era o mesmo que exalavam as criaturas que tínhamos visto anteriormente, mas sim algo mais insidioso, repulsivo, que falava direto a nossos nervos. Gradualmente, as brumas se tornaram mais e mais visíveis, tanto que ao cabo de trinta minutos tínhamos certeza de que havia alguma fonte de luz iluminando-a. Jonas, o cozinheiro, um haitiano católico e inteligente, comentou algo sobre algas fosforescentes na água do mar. O francês (não recordo o nome, exceto que parecia com LaBrette, mas não exatamente isso) achava que era a luz da lua sobre a névoa. O menino que quase caíra sobre o banquete das criaturas aventurou-se a dizer que só podia ser o Diabo rondando a nau. Bem, isso explicava o mau cheiro. Foi Lafayette, um marinheiro velho com barba grisalha, que nos chamou a atenção para a peculiar clareza da água. Era límpida e, ainda assim, parecia emitir uma leve fosforescência de cor verde, que nos permitia distinguir os contornos irregulares do fundo do oceano, sabe-se lá quanto abaixo de nós. Em pouco tempo fazíamos uma fila ao longo do navio, todos olhando o curioso fenômeno. O cheiro estava mais forte. Eram passadas as duas da manhã.